Certo inĂcio de tarde, eis no quintal da porta da cozinha um gato malhado em preto e branco. Surgiu do nada. Notei que estava ali pelo miado. Trazia feridas jĂ¡ cicatrizadas, nĂ£o muito recentes. Era um gato jovem e arisco que nĂ£o se dava a afagos, nem se conseguia chegar perto. Cicatrizes fazem isso tambĂ©m com as pessoas, nĂ£o se deixam aproximar.
Seu miado rouco dizia alguma coisa que meu conhecimento no idioma gatĂªs nĂ£o podia compreender completamente. Mas consegui entender que ele estava com fome. Dei-lhe algumas sardinhas e sobras do almoço. Nunca vi um gato comer tĂ£o rĂ¡pido. E tĂ£o rĂ¡pido sumir tambĂ©m. Nem agradeceu. Nem eu esperava mais que isso. Meu prazer foi vĂª-lo saciar-se.
Dois dias depois. Novamente, no mesmo horĂ¡rio, o mesmo personagem, agora sem o miado. JĂ¡ nos conhecĂamos pelo olhar.
– VocĂª de novo, nĂ©? Disse eu. Alimentei-o de novo e jĂ¡ me senti no direito de dar-lhe um nome: Tom.
Algum tempo depois, Tom amanheceu dentro de uma caixa de papelĂ£o que tĂnhamos perto da lavanderia. E nĂ£o estava sozinho: miados e miadinhos anunciavam que eu havia lhe dado nome errado, pois Tom era uma gata que acabara de me presentear com mais seis integrantes da famĂlia.
E assim passou o tempo, Tom simplesmente aparecia em casa para se alimentar e ter suas crias. A cada ninhada eu tinha que me virar para doar seus filhotinhos, jĂ¡ que cuidar de todos jĂ¡ era demais para meu espĂrito franciscano.
Um dia, fizemos a mudança e fomos para a casa nova. Tom ficou. Quer dizer, nem sei onde ele estava neste perĂodo da mudança. Foi uma vizinha que depois nos ligou e disse que a casa vazia ainda era morada de Tom, que talvez nos esperasse para ir busca-lo. Nunca senti que ele me pertencesse, por isso nĂ£o fiz questĂ£o de leva-lo, porĂ©m voltei lĂ¡ para fazer o convite.
Desta vez, Tom foi junto. Na verdade, tentei fazer com que ele fosse comigo no carro. Mas durante o trajeto, fez-me suar frio com tamanho escĂ¢ndalo e ameaças. Eu parecia um ar condicionado ambulante. A temperatura do carro deve ter diminuĂdo atĂ©. Naquela cabecinha malhada o que se passaria? Estaria eu levando-o para o sacrifĂcio? SoltĂ¡-lo distante para que nunca mais voltasse? Naqueles momentos ressurgiu sua fĂºria, sua mĂ¡goa pelos maus tratos que sofrera antes que o adotĂ¡ssemos. Quantas feridas sangraram naquela sua dĂºvida ou certeza? O problema Ă© que, como disse, eu nĂ£o falo gatĂªs. Mas expliquei: - Calma, Tom, vamos para a casa nova, lĂ¡ te dou uma lata inteira de sardinha! Ele sĂ³ rugia como um leĂ£o enjaulado. Estava prestes a tomar-me a direĂ§Ă£o do carro. No entanto, chegamos Ă casa nova e ele, depois de mais uma farta alimentaĂ§Ă£o, sumiu por dias e voltou, como de costume.
Algum tempo depois, mudamos de cidade e nĂ£o havia mais como leva-lo. A casa ficou fechada e para ela voltĂ¡vamos de vez em quando. Nesta fase, Tom aparecia para nos visitar nestas ocasiões. Ă€s vezes ficĂ¡vamos meses sem aparecer, mas, quando vĂnhamos, do nada, em silĂªncio aquele gato malhado aparecia para, quem sabe, matar as saudades e a fome.
Certo dia, voltamos em visita, mas Tom nĂ£o veio mais. Passei a me angustiar sem saber onde procura-lo. Ele nunca teve casa, morava nos telhados. SerĂ¡ que havia morrido? Onde estariam suas novas ninhadas? Teria encontrado uma nova famĂlia que o adotasse?
Alimento ainda a ideia de que os gatos tĂªm sete vidas, e Tom sempre teve uma a mais: minha lembrança. Na dĂºvida quanto Ă sua real existĂªncia, agora ele tem onde morar fora de mim. HĂ¡ muito tempo vivia apenas na minha saudade, agora habita este texto, a que dei o nome de Telhados. Sim, Tom jamais se rendeu aos quintais, preferia a vida livre sobre os telhados.
E vejam agora quem acaba de aparecer:
- Tom! VocĂª nĂ£o perde o vĂcio! Outra ninhada de gatinhos!?


8 comentĂ¡rios:
Fiquei de lĂ¡grimas nos olhos e arrepiada pelo final! :))
Amei o Tom! :))
NĂ£o, tem jeito... os seus textos jĂ¡ sĂ£o tocantes sozinhos... quando vocĂª escreve sobre gatos, nĂ£o dĂ¡ pra segurar a emoĂ§Ă£o!
Lindo, lindo!
Telhados.
NĂ£o acho lugar melhor para um gato fujĂ£o.
Como na histĂ³ria, o retorno fica por conta da fome e da saudade.
O que serĂ¡ mais forte entre dois amigos?
O apetite a gente pode adiar. Mas a saudade, esta tem fome de olhar!
Acho que vc alimenta gente alĂ©m de gatos, nĂ£o?!...
Muito bom, lindo. Faço minhas as palavras da Vilma.
Quanta sensibilidade, parabéns! :)
Depois de XaxĂ¡, Tom. Felinos sempre foram meus animais prediletos, alĂ©m dos primatas.
Gosto da maneira como o companheirismo de um gato se efetiva, muito embora por vezes imagino se assim nĂ£o procedem por puro interesse, se nĂ£o sĂ£o outra coisa que nĂ£o convenientes.
Talvez sejam fiĂ©is a lugares, nĂ£o a pessoas, e disso temos um pouco tambĂ©m: apegamo-nos a locais, mas tambĂ©m a gentes, e a coisas, nĂ£o obstante muita gente seja pouco mais pouco menos que uma coisa.
Enfim, agora faltam cinco outros contos de gatos para formalizar uma vida de sete gatos (e nĂ£o um gato de sete vidas).
Abraços, cara!
Que lindo texto Emerson! Me emocionei.
Um abraço!
LĂ¡grimas me presentearam os olhos. Lembrei de uma gata chamada "Novelo" que tive por quase 10 anos. Quando ela morreu eu chorei uns 10 dias seguidos. Era vira lata, mas era toda garbosa, toda linda... e deixou em mim um vazio...
Acho de uma beleza estonteante as coisas que escreve!
beijo
Quanta coisa a gente deixa sob e sobre os telhados por onde passamos, feito as sete vidas de Tom... nossas sete vidas, no mesmo Tom de busca.. Gostei!
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