segunda-feira, 2 de novembro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
SOLUÇO
Ali, no alvorecer de um sonho imenso,
Por sobre o estranho céu das horas breves,
Teus véus formavam nuvens, sombras leves,
Na brisa em que surgiste como incenso.
Depois o teu perfume se espalhou
Por toda a primavera do meu mundo,
E quando a ventania te levou,
O tempo vi passar como um segundo.
Busquei-te no universo que murmura
O amor estilhaçado nesta escura
Janela do desejo em que debruço.
Assim, no pranto oculto da lembrança,
O aroma que me fere feito lança
É a vida que me invade num soluço.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Lágrima no Oceano

Aqui neste oceano desigual
Às margens do meu sonho continente
Eu busco na maré do impenitente
As rosas que nasceram neste sal.
Sou brisa, meio água, ser concreto,
Imerso nesta idéia sem defeito
De ver nas profundezas do meu peito
O abismo onde escondi meu mar secreto.
Aqui na eterna luz do entardecer
Eu busco despertar e ter rever
Na imagem que espelhou-me o navegar.
Senão , voltar em sonho aos desenganos;
Quem sabe adormecer por mais mil anos
À espera de algum dia, à beira-mar.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Espelhos
A noite me atravessa como um raio.
Eu vejo-me no espelho que sorri
E fixo nesta imagem enquanto saio.
***
(meu primeiro poema escrito originalmente para o Twitter)
http://twitter.com/emebatista
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
DESPOEMA (de 1993)

eu quero viver da matéria impensável,
subterrânea e inalcançavelmente pura.
por isso, viva o homem-palavra,
que diz-se na existência...
viva a palavra-pedra,
que mata mas não empobrece o espírito,
a pequenez da areia sem praia
e sem beleza de ângulo ou verso,
o fato-verso, o anagrama de capins sem raça
e a falta de inspiração
a que nos leva o excesso de gesto,
a poesia incompreensível do ver-se.
viva a morte que crucifica o sábio para renascer o santo,
os podres poderes e os padres pobres,
os montes e as montanhas de coisas pra dizer
sem porquê,
as sombras e os breus deste dia dentro de mim,
e os homens e as mulheres, os garfos e as colheres.
eis a rima, a fonte, o mar e o horizonte,
a estrela da tarde que se foi e o sonho imprevisível,
o quase impossível de ser livre e a mente dilatada,
viva o tudo e o quase nada,
viva a vida, viva a estrada.
domingo, 23 de agosto de 2009
Filhinha do Papai
Corujice à parte, dou um doce para quem adivinhar quem é essa garotinha linda na primeira página do "Jornal da Cidade" de Bauru.
Dentro há um caderno dominical dedicado às crianças. Até foto do Gabriel tem. Afinal, segue os passos da irmã. A Natália fala sobre o seu blog e sobre os cuidados que papai e mamãe lhe recomendam na Internet.
Quem quiser dar uma visitadinha: http://pensamentosdeumagarotinha.blogspot.com/
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
ALMA

Andarilho das almas,
vagueio entre amores,
disperso como o vento ameno
quase um suspiro nos lábios umedecidos.
Levado por essa ânsia de sentir-me
desprovido de caminhos como as estrelas
descubro-me assim no meio fio do céu,
na gelidez e dureza de um passo vão.
Quebrado em mil pedaços, reflito sonhos no olhar,
digo amém às preces dos outros
e fujo sempre, sempre e sempre,
como se devorasse o espaço e a distância
com meus passos de moleque avesso.
Crescem flores, em mim,
eu deixo as flechas de luzes me ferirem no coração da sombra,
sou brisa, sou casa, armadilha,
jardim semeado aguardando a chuva,
um ego ferido esperando ajuda,
um sol sangrando no poente.
(poema de outubro de 1997)
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
ESTRELA
Uma estrela brilhante, sem par.
Traz no rastro a beleza do lindo
Pôr-do-sol refletido no mar.
Vem de longe, trazendo esperança
Desses mundos que os olhos não veem.
E traçando um sorriso criança
Neste céu que hoje é noite também.
Feito noiva brilhante no altar,
É semente da paz sorrateira
Que nos surge aprontando seu laço
Feito estrelas brincando no espaço,
Na ciranda da Luz Verdadeira!
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
MICRÓBIO (de 1993)

O brilho fugidio da semente.
Sou pássaro esquecido do seu ninho
Que culpa-se voando eternamente.
Estou no espelho estúpido quebrado;
Moído, após enganos e ilusões.
Com ele estão meu corpo e meu passado:
Cobertos de loucuras e visões.
E assim, não tenho nada e nem queria;
Nem divas, nem a lua que cobria
Em sonho a minha vida e se perdeu:
Apenas quero estar no cemitério.
Por fim, eternamente homem sério,
Na orgia dos micróbios como eu.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
IOSEH

Um nobre carpidor da terra crespa,
Trazendo junto ao corpo seu cantil,
Vai longe, procurando, feito vespa,
Sujeira e tiririca pelo tri´o.
Assim, seu nome escreve em solo quente
Em letra a passo escrita, o desletrado.
E o corpo, sob o sol que invade a mente,
Na terra destes campos faz o arado.
No fôlego que anima o corpanzil,
Adiante espreme/expande o ar no peito,
Pois passo de caboclo é igual funil
Na vida, carpe o sol que se expandiu,
Na morte, colhe o sol do rio sem leito.
domingo, 12 de julho de 2009
Blog da Natália

Minha filha Natália acaba de criar seu blog. Ainda me lembro quando a vi chegando nos braços da enfermeira para que eu lhe desse o primeiro beijo. Um bebê lindo, de lábios grossos e choro forte.
Aos 10 aninhos ela só me dá alegrias. Essa miniaturinha de gente, que quer ser médica obstetra, estreia seu blog de reflexões.
Recomendo a todos:
http://pensamentosdeumagarotinha.blogspot.com/
sexta-feira, 10 de julho de 2009
TOMATES

Converter é uma arte.
Quem não chora? - disse eu, rindo.
Cai a estrela... desce... quase em vão...
Bateu no solo... saiu ferida, quente.
Sangue de luz a refletir a noite.
A descoberta é um desnudar-se,
Quase uma queda indiferente.
Nesse mundo tudo era criança
E a palavra era o mundo que criava tudo
E o tomate não ficava vermelho
Enquanto era criança, porque era verde
em sua esperança.
Agora, ih, não se pode falar pr’a ele
Tudo o que se pensa sem pressa,
Que ele já enrubesce.
Pobre tomate,
Vive, num mundo que cresce!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
ANJO

segunda-feira, 22 de junho de 2009
INOCÊNCIA

Mas lembro do rostinho que outro dia
Me dava tanta luz, tanta alegria,
Que acho até que isso nem existe.
Cuide, amor, do meu coraçãozinho
Que é seu desde o momento que demora.
Daí quase nem sinto friozinho:
A dor vem de mansinho e vai embora.
Daquela brincadeira no jardim
Eu tento me esquecer, mas não tem fim,
O tempo de uma infância tão maluca.
Brincar de estar num sonho e não ter paz:
Amar é brincadeira que machuca.
domingo, 14 de junho de 2009
NOITE

Na Mente que esclarece, a Cor é Espanto...
E o Sonho lhe embriaga em Tons de Morte
Persegue a Explicação, lhe estende o Manto
Repousa nas Cantigas da Consorte...
No íntimo da Noite existe um Fogo
Que jorra pelos Olhos e traceja
Os Passos que nós damos como um Jogo.
Na Relva da Manhã despedaçada
Em Gotas deste Orvalho de Mormaço.
Pois pago pela Dor o justo Preço:
No altar do meu Presente me desfaço.
terça-feira, 9 de junho de 2009
ENTRETANTO
* (1)Entre a vida e a tristeza,
Entretanto.
Entre a busca e a conquista,
Caminho.
Tanta distância e partida,
Adeus.
Entre o céu e o abismo,
Tanto o olhar como o sorriso,
São teus.
Entre o Passado e o Destino,
A porta entreaberta.
Tanto imagem quanto o espelho,
Ilusão.
Entre o Tempo e o Espaço,
Compasso.
Tanta música ao vento,
Compaixão.
Entre o Verbo e o Calvário,
A Palavra.
Tanto aqui como sempre,
Salvação.
Entre o sono e o dormir,
Recomeço.
Entre o azul e as estrelas,
O dia.
Entre a pedra e a poeira,
Tropeço.
Entre a palavra e o silêncio,
Poesia.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
IMOLAÇÃO

Não busco teu perdão, Sacerdotisa.
Mas como não deixar que tu me leves,
Se em cânticos velozes me exorcizas,
Enquanto me consagras horas breves?
*
Com lágrimas assino este oráculo
Que aos poucos no calor se vai na brisa,
Assim, vou como nuvem, sustentáculo...
Do altar de uma oração que se eterniza.
*
Recolho-me, ferido em sacrifício,
E ali repousarei como um resquício
Da vida que foi longa enquanto intensa.
Além do sonho existe a mesma glória
Do amor de quem se deu por recompensa.
terça-feira, 26 de maio de 2009
CANTILENAS

sexta-feira, 22 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
PASSADO

Acima do Universo e das marquises
Há um místico luar curvado em manto:
A imagem não tem sombras, só matizes
Do olhar que lança ao mundo o seu espanto.
Na terra nascem rios cujas fontes
São lágrimas perdidas, sem luar:
São mares dando luz aos horizontes
Na linha em que se perde o meu pensar.
No molde em que deixei-me descrever,
Nas linhas pontiagudas do meu ser,
Há cinzas de um Passado que esquecemos.
As portas entreabertas não tem chaves,
Por elas passam luzes como aves,
Trincando o grande espelho em que nos vemos.
sábado, 9 de maio de 2009
CHE GELIDA MANINA (Que mãozinha gelada)
La Bohème - "Che gelida manina" - Giacomo Puccini
Que mãozinha gelada!
Permita-me aquecê-la.
Procurar para que?
Não se encontra na escuridão.
Mas, afortunadamente,
é uma noite de lua,
e aqui a lua
a teremos bem perto.
Espere, senhorita,
Lhe direi em duas palavras
quem sou, quem sou e o que faço,
como vivo. Quer?
Quem sou? Quem sou?
Sou um poeta.
O que faço? Escrevo.
E como vivo. Vivo.
Na pobreza a minha alegria
gasto como um grande senhor
Rimas e hinos de amor
para sonhos e para quimeras
e para castelos no ar
tenho a alma milionária.
Por vezes do meu cofre
roubam todas as jóias dois ladrões:
os belos olhos.
Entraram convosco agora,
e os meus sonhos habituais
e os belos sonhos meus
rapidamente se dissiparam!
Mas o roubo não me incomoda,
porque, porque permaneceu ocupada
uma (doce) esperança!
Agora que já me conhece,
fale você, ah! diga.
Quem sois?
Gostaria de dizer-me?
----------------------------------- Original ---------------------------------------
Che Gelida Manina - Ópera La Boheme - Giacomo Puccini
Aspetti, signorina,le dirò con due parolechi son, /e che faccio,come vivo. / Vuole? Chi son?Sono un poeta. / Che cosa faccio? Scrivo. /E come vivo? Vivo!
In povertà mia lietascialo da gran signorerime ed inni d'amore. / Per sogni e per chimeree per castelli in aria,l'anima ho milionaria.
Talor dal mio forziereruban tutti i gioellidue ladri, gli occhi belli. / V'entrar con voi pur ora,ed i miei sogni usati e i bei sogni miei, / tosto si dileguar!
Ma il furto non m'accora,poichè, v'ha preso stanza la speranza!
Or che mi conoscete,parlate voi, deh! Parlate.Chi siete? Vi piaccia dir!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
LABIRINTO
Que espalha os fragmentos pelo mundo.
Assim, não me arrependo do que penso,
Eu faço do meu tempo o meu segundo.
*
Acordo em meio ao dia incandescente
Debruço na janela de um olhar;
Flutuo nos vapores do presente
Enquanto me procuro além do mar.
*
Resisto o quanto posso enquanto penso...
Mas, ai!..., já sinto a flecha que me alcança:
O tempo é mais veloz que o meu silêncio,
*
Navega em águas ríspidas e lança
Portais de labirintos neste imenso
Clarão indivisível da lembrança.
terça-feira, 28 de abril de 2009
ACALANTO

Em brumas de acalanto me disperso
Qual nuvem de presságios arredios.
Em vez de despedir-me, digo um verso
Às ninfas que me servem calafrios.
Por isso, quase sempre me aquieto
E nunca reverbero o som da dor:
As brumas vêm do sonho predileto
E o vento lhes afasta o sofredor.
Às sendas sinuosas me ofereço
E sigo nas palavras o começo
Do texto que meu fim dará início.
E sinto que, no fundo, alguém descreve
Lembranças de uma vida que não teve
Enquanto joga ao vento o seu resquício...
terça-feira, 21 de abril de 2009
PASSAMENTO

quarta-feira, 15 de abril de 2009
JANELA
sexta-feira, 10 de abril de 2009
REVERSO
as noites em que sonho ser um santo.
acordo e não desperto com meu grito:
imóvel, perco o sono e não levanto.
quem sou? pergunto ao sonho fugidio.
que tempo há de nascer quando eu voltar?
por que tanta lembrança e calafrio
se nada é mais incerto que acordar?
nas teias do meu ego submerso
encontro os dois espelhos no reverso
da imagem que dá vida ao meu Narciso.
por fim, quando me volto ao sonho lento
um pássaro me rasga o pensamento
lembrando que acordar não é preciso.
FUGAZ *
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em lágrima e vida
derrama-se em paz.
Escorre e derrete,
Esgota e reflete
Um raio fugaz.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
sábado, 28 de março de 2009
VIOLONCELOS *
Que amor suportaria a diferença
Que existe entre o querer e o ser querido?
Seria insensatez a recompensa
De dar o que se quer sem ser pedido?
Se adiante vais correndo, sento e espero
Que voltes, mas se voltas, já parti.
Então, como explicar-te o que não quero
Se tu já me mostraste o que não vi?
E como ver sentido no perfeito,
Se as curvas deste espaço rarefeito
São luzes que ao final vão se encontrar?
Por isso, num perfil de violoncelos,
Nós somos dois riachos paralelos
Que correm cegamente para o mar.
__________________________________
* (1) Soneto vencedor do Mapa Cultural Paulista, em 1998, na categoria Poesia.
* (2) Quadro da artista plástica Cristina Casagrande, entitulado "Violoncelos".
quarta-feira, 25 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
O CIÚME

sexta-feira, 20 de março de 2009
A infância e o Tempo
segunda-feira, 16 de março de 2009
RIO IMENSO

Ao longe, o Rio...
Simplesmente Rio solto
Livre, sem barreiras
Deixei-me levar por esse rio, liberto.
Tentei ser poeta, desisti.
E fui profeta de mim.
Hoje sou homem de alma e corpo e de Ser,
Fumaça espiritual de Deus
Sujeito do verbo haver...
Nada me indica onde vou existir
Amanhã.
Pode ser adiante,
além
Ou simplesmente aqui.
Sou muitos e vastas dúvidas
E dividendos divisores múltiplos
De muitos que não sou.
Morresse ontem
E não seria
O que não sou
Hoje.
O rio, ah meu Deus, o rio!
Esse rio corre e passa
Como se deslizasse por sobre a Eternidade
do seu leito.
Rio solto em correnteza,
Livre movimento,
Escravo do seu curso,
Fixo em seu caos.
Nascendo sempre, em todo lugar,
Na correnteza incerta.
Aquele rio nasceu e renasce de mim,
Por isso me corre adiante, desesperado.
Aquele fio de tempo escoando,
De ser fluindo e se transbordando
Sou eu
Sem mim,
Que vou
Sem fim.
sábado, 14 de março de 2009
SONETO INACABADO
(Noite e Estrelas - Van Gogh)Mas como hei de apagar dos meus cadernos
E quando hei de saber se foi pequena
Seria na lembrança da procura
segunda-feira, 9 de março de 2009
ÁLAMO
Ali, nas alamedas de outros tempos,
No espaço oblíquo e lânguido em que vais,
Procuro em arvoredos, pensamentos,
Teus olhos como estrelas imortais.
São brilhos multiformes, desconexos,
Do espelho estilhaçado pela dor;
A imagem não tem luz e seus reflexos
Fulguram como lágrimas de amor.
Assim, esvai-se a vela da existência,
Que um dia me trará por recompensa,
As cinzas sorrateiras da razão.
Ao longe, me propago no horizonte,
Suspiro em frente a chama desta fonte
De luz, fumaça preta e solidão.
terça-feira, 3 de março de 2009
VENTANIA

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
ARCO-IRIS
Do pântano me elevo entre os vapores,
Crisântemos e esferas abissais...
Transporto-me nas bolhas multicores
Aos céus dos inorgânicos cristais.
E neste sobrevoo de fulgores,
Por sobre as incertezas desiguais,
Sou campo que me espalho junto às flores,
Imerso nos jardins e nos quintais.
Assim, não me contenho, me abrevio,
Exerço meu perdão no calafrio
Que corre em minhas veias, como a cor.
Desato o nó que é preso na garganta,
Enquanto a chama tíbia, quase santa,
Esvai-se num soluço de pavor.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
DA GUERRA E DO AMOR
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
INOCÊNCIA

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Amo-te
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Non pensare a me

Em sonho nalgum lugar
Num tempo que fosse o vento.
E houvesse o teu rosto lindo
Brincando de amar sorrindo
Nas horas do esquecimento.
Quem sabe se a vida intensa
De esperas sem recompensa
Me fosse um luar fugaz.
Se ao menos houvesse estrelas
Na noite e se eu fosse vê-las
Depois de uma noite em paz.
Quem sabe os vestígios lentos
Dormentes nos meus lamentos
Não fossem perdão jamais...
Se houvesse um fugaz depois
De um dia em que fomos dois
E agora não somos mais.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
AORISTO *

No breve e imenso instante te imagino
Comigo como sempre hei desejado.
Recrio, recomponho algum destino,
Revendo em labaredas o passado.
Mas nesta efervescência e desatino,
Cansei-te com meus mimos, foste embora.
E longe foi meu sonho repentino
No tempo que morreu naquela hora.
Assim, qual dor prefiro, então, querida?
Perder-te é mais fatal, é o fim da vida,
E o fim inevitável do presente.
Prefiro te encontrar na primavera
Que explode multicor enquanto espera
As chuvas do verão eternamente.
aoristo[Do gr. aóristos, ‘indefinido’, pelo lat. tard. aoristu.] Substantivo masculino. 1.E. Ling. Nalgumas línguas, como no grego e no sânscrito, forma que o verbo toma para indicar que uma ação passada é vista independentemente de noções aspectuais, como, p. ex., ter sido completada ou não, estar repetida ou não, ser duradoura ou não, etc.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
PARTIR, UM VERBO HUMANO *

Seguindo a mesma regra dos cumprimentos, as despedidas variam em gênero, número e grau.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
SOBRE A ARTE DO CUMPRIMENTO (de 1993)
Quem nunca ouviu aquele famoso "ôba"? É o cumprimento típico dos que fazem questão de dar impressão positiva, juntamente com o "beleza!". O estranho mesmo é quando se encontram algumas dessas pessoas num bar, por exemplo: vira aquele “oba-oba!”
Já para os interioranos, não é segredo mais aquele sonoro "ôa", por certo contração do já mencionado "ôba". Provém, certamente, de uma tendência especial do interior saudosista em ver bois e carroças por toda parte. É a chamada neurose da mula empacada, também explícita no "ôpa!" ou simplesmente "ô". Não é à toa que os rodeios estão na crista da onda.
Principalmente entre os jovens é notável a presença do já consagrado "e aí?". A gente nunca sabe se o cara está entusiasmado no meio de uma estória ou perguntando se vai chover. Ultimamente o "e aí?" já tem suas variações também. Um exemplo típico é o gesto com as mãos em “hangloose” balançando igual dança do diabinho doido. Parece que o sujeito está dizendo: "te ligo depois..." Os adeptos do "e aí?" normalmente cultuam também o "tudo jóia?" ou o "joinha?", do mesmo time do "ôba", em versão de joalheiro cafona.
Para os hipocondríacos, o mais viável sempre foi o "tá bão?" ou o "firme?", ao qual os sarristas prontamente respondem: "não, é novela mesmo!". Já os tímidos detestam os partidários do "fala!". Esses, ao que parece, são ouvintes do antigo programa do Zé Bettio: "Fala, Zé! Falo, falo sim."
Há ainda um outro grupo, os nominalistas. Eles não cumprimentam ninguém, apenas dizem o nome do interlocutor. Legal, você encontra o sujeito e ele diz pra você quem você é! Melhor mesmo quando dois desses se encontram. Como um deles já disse o nome do outro, o segundo fica sem saída e tem que agregar algo mais ao cumprimento. Normalmente tudo acaba em “tá bão?”. Sem obter resposta, claro.
Uma característica especial dos presidentes é sua originalidade na recriação do cancioneiro dos cumprimentos e saudações. Quem não se recorda do "brasileiros e brasileiras" ou "minha gente"? Igualmente redundantes.
Há também o clássico dos clássicos: o "oi" - também com variantes. Uma delas é a palavra soluçada em solavanco tímido, quase inaudível - muito comum quando se cumprimenta de soslaio, só pra não parecer orgulhoso. Outra é o som prolongado em cada uma das vogais desse ambíguo ditongo (“ô-í”), e temos então um hiato recém-nascido. Claro que a lista de variações não se esgota aí, basta ver o “oi-ê”, dentre outros.
Principalmente as adolescentes, e os rapazes com um toque de frescura, adoram o "oiii!", geralmente acompanhado por sorrisos de hipopótamo e gestos de limpador de pára-brisa com os braços. As mais recatadas preferem o "oooi!", fazendo biquinho e curvando-se levemente para trás. E, também, através da união desses dois tipos, surge o chamado "oi orgasmático": ensolarado, longo e pastoso. É o delírio dos encontros entre amigas cínicas que se odeiam. Já entre as mais carinhosas predomina o "ôo", da família do "ôba". É representante digno da a chamada mania de cuco aprendendo canto gregoriano. Imagine uma gangue dessas se encontrando ao meio dia!
O assobio, característico em homens, é um caso interessante. Dependendo do tom e ritmo designa a pressa ou o estado emocional de quem o emite. Os apressados e os introvertidos preferem substituir qualquer outro cumprimento por um assobio minúsculo, quase inaudível. Tem gente que usualmente assobia em dois tempos, sendo que os homens têm cuidados especiais para diferenciar um assobio do outro e não acabar dando um "fiu fiu" pra outro marmanjo.
Além desses tipos, dentre tantos igualmente interessantes e não menos cômicos, podemos notar ainda a crescente tendência à mímica compulsiva, predominantemente nos jovens. Certo dia, por exemplo, caminhando pela rua, encontrei um colega a quem entoei meu velho, bom e inflacionário: "tudo bem, cara?". Pensei que ele fosse me responder o resignado “tamo aí, né!?”. Mas, ele balançou o tronco em retirada, emitindo um sonoro polegar direito em riste, mudíssimo. Fiquei meio sem jeito e fiz o mesmo. Afinal das contas: "Quem não se comunica..."
(Publicado originalmente no jornal "O Democrático", em Dois Córregos)
sábado, 24 de janeiro de 2009
RETRATO
É estar um pouco acima dos mortais,
Depois de dissipar completamente
As sombras dos temores desiguais.
No bálsamo que espalha o seu perfume
Nas almas esmagadas, ressequidas,
Escondem-se as ninfas que o ciúme
Dá vida enquanto enleva nossas vidas.
Assim, na luz dos mundos que admiras
Percorro vales, morros, velhas liras,
Buscando teu retrato aos quatro ventos.
E vejo ao dissipar a sombra enorme,
No vulto da saudade já sem nome,
Teu rosto esvanecer em pensamentos.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
CIGANO DE MIM MESMO (de 1994)

Certa vez eu passava por aquela trilhazinha que fica do lado esquerdo como quem sai pela via de acesso à cidade de Dois Córregos. Era tarde caída. Eu vinha subindo como quem viesse do bairro Arco Íris para o centro da cidade.
De instante, deparei-me com a garganta da noite engolindo o horizonte de trás da torre da igreja matriz. No céu, aquela cor avermelhada como sangue esparramado; na terra, o tom rasteiro da vegetação longínqua. Não era uma tarde como todas as outras.
Senti um cheiro de capim queimando. Procurei-lhe a origem seguindo no olhar a fumaça que envolvia o pasto inteiro. Duas personagens sem rosto faziam fogueira sobre o leito imaginário do córrego que era fundo e hoje é lajeado como o outro.
A sensação não me era estranha. Lembrei-me de algo vivido ou sonhado na infância. Não era capim queimando, era incenso de cigano! Parecia que estavam realizando algum ritual sagrado. Foi então que realmente percebi nos sentidos todos que aquele aroma preenchia-me de corpo inteiro como se me procurasse dentro do meu corpo. Algo de encantador me fazia palpitar dos nervos. Uma força me arrastava em sonho para perto do lugar onde estavam. E a fumaça evidenciava a penumbra crepuscular.
Eu já estava quase chegando no asfalto em passos leves, e o cheiro dispersava-se. Paro. Olho para trás. Caminho um pouco. As duas personagens agora se me afiguravam como dois vultos escondidos na cortina do entardecer, onde luz nenhuma consegue desfazer o que não é escuridão - tudo é sombra.
De onde eu estava, percebia a base do fogo como se fosse um dragão dormindo embriagado. Iniciou-se uma luta dentro em mim. Duas forças me compeliam no movimento horizontal: uma atraía, e a outra também para o mesmo lado: o do fogo. Não ofereci resistência alguma. Caminhei a princípio lentamente, e depois em disparada, absorvendo o espaço à minha volta. Cada vez mais perto, perto...!
Ofegante, ainda ao longe consegui ver o rosto das duas personagens, apenas contornados pela claridade do braseiro daquela fogueira sem fogo. Parei defronte aos dois e, sem nada perguntar, apenas hipnotizado pelo semblante idêntico deles como um tríplice espelho, sentei-me no chão no lugar de um, que seguiu caminho no meu lugar.
(Publicado em 1994 no Jornal O Democrático em Dois Córregos-SP)
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Meu tamagochi *
Incluí o aplicativo de Propaganda do Google para observar o comportamento deste monstrinho no meu blog.
Vejam só! Escrevi poemas e textos sobre morte, etc. E qual é a propaganda que ele 'sugeriu' com sua inteligência advinhativa? Bingo: propaganda de cemitérios! Por isso que a informática não tem nada de poético. É a razão pela qual os blogs não são mágicos e os livros antigos empoeirados ainda o são. Talvez quando inventarem a poeira cibernética.
Enquanto isso, eu ajudo a vender vagas em cemitérios. Ai que arrepio!!!!!
* Tamagochi é um bichinho virtual inventado no Japão que tem 'inteligência artificial'.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
A RUA (de 1993)
Certa noite, eu assistia a um filme daqueles assustadores, de dar medo de colocar os pés no chão depois de assisti-los. Chamava-se "A Rua", de um cineasta belga. No entanto, notei algo estranho: Minha televisão jamais havia sintonizado o canal dois, que naquele momento parecia ser o único das dezessete polegadas em preto e branco.
Na cena, havia um homem de chapéu chaplin caminhando pela rua escura, um homem vestido em negro e portando nas mãos uma caixa de sapatos onde se via escrito "Elisa". A princípio, imaginei Fernando Pessoa, mas a personagem se oscilava na imagem como se sumisse na penumbra. A rua estava aparentemente alagada, uma ladeira mais sem-fim que um dia sem-luz.
Pela televisão, eu conseguia ver, no canto esquerdo da tela, a lua e o sol juntos numa dança silenciosa. Ouvia os passos ritmados do homem como castanholas imitando ferraduras. Ele andava como se estivesse com muita pressa, como se perseguisse a própria sombra. E não olhava para a frente, mas para a calçada cheia de musgos entre as pedras.
De súbito, como se a noite se encolhesse numa caixa de luz, não vi mais a televisão, somente o homem como em sonho. Pela primeira vez na cena, vi outra personagem, que estava também vendo-o passar. Um sujeito na janela entreaberta não me era estranho, e ,por isso mesmo, causou-me calafrios. Percebi que minhas costas latejavam na poltrona da sala branca.
Ouvi passos ao longe, porém vindo na direção da minha casa. Na sala havia uma janela entreaberta sem cortinas. Era dia de São João e a meninada havia feito fogueira na rua, de forma que se podia ver vultos na parede atrás da estante. A luz do fogo miúdo fazia os mosquitos e pernilongos na janela parecerem monstros.
De instante, um vulto, um homem projetado em sombra na parede. Havia alguém passando defronte a casa! E os passos, rapidamente, distanciavam-se. A curiosidade preencheu-me de alma inteira. Fui à janela para ver quem era e, quando voltei os olhos, a televisão já havia sido desligada.
(Publicado originalmente no Jornal "O Democrático", de Dois Córregos-SP, em 1993)
ABRE-TE INSTANTE (de 1994)
A vida constantemente nos revela paisagens, detalhes do quotidiano, sinais místicos que nos tomam de assalto e marcam para sempre. São como peças de um quebra-cabeça cuja imagem de fundo é o nosso próprio destino. Aquele besouro brilhante, um rosto perdido numa viagem, ou o pão-com-manteiga que a mamãe punha na lancheira são momentos/imagens únicos onde não há mais sonho ou passado, distância ou acaso, apenas um coração feito labirinto. Comigo também foi assim... Um sonho? Talvez. Era apenas um ipê que deixava cair suas folhas ao vento numa tarde de primavera. Um instante, vestígio da eternidade, foi suficiente para unir-nos para sempre.
Conhecemo-nos naquele dia da minha infância. Eu era policial mirim e já estava atrasado para a chamada. Caminhava apressado, cabisbaixo, quando elevei os olhos. Congelou-se o tempo dentro de mim. Uma porta abriu-se para além do meu nascimento, para além de tudo o que eu vivera. Era tardezinha, o sol avermelhava o espaço por detrás da praça Francisco Simões, em Dois Córregos. O céu se dividia entre noite e dia sobre minha cabeça. O véu dourado que o sol levava consigo ofuscava as estrelas que nasciam. Como num sonho, pássaros ainda cruzavam o céu na volta aos seus ninhos enquanto uma brisa fazia dançarem as flores daquele ipê que flutuava no meu encantamento. Um fio tênue de luz nos transfigurava. Havia um pacto de sonho entre nós.
Na infância todos os sonhos são possíveis, todas as imagens indeléveis, todos os medos eternos. Hoje o tempo nos separa como as duas margens de um rio. Vejo-o no mesmo lugar em outra dimensão. Às vezes uma lágrima indecisa me invade por dentro e a memória múltipla transborda em sons, cores e aromas. Chega novembro, finados - tempo de melancias na Avenida da Saudade. Tudo entre nós parece desvanecer-se no espaço. Mas quando sopra o vento levando e trazendo ilusões, meu ipê está ali naquele canto, naquele bosque, em qualquer lugar.
Dedico-lhe devaneios em certos momentos, mas como se viajasse pelo tempo e espaço. Descubro sua presença em outras imagens. Às vezes sigo para um lugar elevado para ver a cidade à noite, o fervilhar das luzes e mentes. Imagino o multiplicar do mundo, a vida acontecendo sob o véu negro da escuridão. Contemplo o sem-sentido, relembro a morte certa e o futuro além daquela esquina, daquele pôr-de-sol. Crio mundos onde repousar meu esquecimento. Talvez em algum deles aquele ipê seja um caminho, um amigo que se foi, um sorriso materno, ou aquele barquinho de papel que ruma eternamente ao horizonte de um novo sonho.
* (Publicado originalmente no Jornal "O Democrático", em Dois Córregos-SP, em algum dia do ano de 1994)
domingo, 11 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Oração da Noite
No foco deste olhar que me desvias,
Tal como a solidão das ventanias,
Do altar empoeirado sem as preces.
Pensar é um troço estranho - quem entende? -
Que surge ao despertar depois do sono.
É sempre uma agonia, um banho quente...
A areia vem nos olhos... desmorono.
Não quero mais dormir e lhe reclamo,
Ó Deus, que me abraçaste neste insano
Momento da clareza dos ateus.
Só busco meu lugar intensamente,
Vivendo à luz constante, onipresente,
Meus olhos sempre abertos frente aos teus!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Cemitério de Perfis
Está demorando para alguém inventar um ‘Cemitério de Perfil’ no Orkut (e similares), de forma que os amigos que se foram, e não deixaram a senha para ninguém, possam ser e - enterrados.
Isso vai evitar também a horda de abutres virtuais nos perfis dos defuntos.
Camaleão
Devido à minha baixíssima produção poética, passarei a usar este espaço para publicar meus textos de outros nuances também.
domingo, 13 de abril de 2008
DEPOIS DE MOANA VEM A HISTÓRIA (de 1993)
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Nem me recordo mais daqueles estradões de areia queimando-me os pés. Queria perscrutar minha consciência dos momentos que se passaram naqueles dias, mas só me restou um sentimento de saudade e falta de ar. Moana sempre me dizia sermos fortes demais para confessarmos o passado; mas que direi eu a Moana? Ah, Moana, você não entende nada das coisas da estrada... nem das noites cobertas de ventos enlouquecidos.
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Imagino ter sido assim meu passado: cheio de pessoas com rostos deformados pela ação do desejo de como desejaria que elas fossem. Eu queria muito desejar a realidade futura, mas o presente só me permite idealizar o passado, que é a única matéria pura que minha memória consegue preservar. Moana jurava de pés-juntos que jamais seríamos escravos do caminho. Mas Moana desistiu. Ah, Moana, minha Moana, onde está você? Sua sombra?
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Eu nunca vou me esquecer que um dia já fui vaqueiro, porque o vaqueiro que eu fui jamais se esqueceu que um dia matou seu gato preferido tentando montar-lhe o dorso - pobre Xaxá. O Xaxá era meu companheiro quando a Moana nem se lembrava de mim para ficar mexendo com aquele estúpida roseira sem rosas.
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Um dia, Moana estava assistindo televisão, quando passou pela frente da nossa casa um carro-de-boi que comia chão, levantando até poeira daquela areia limpa e seca de inverno. Ela veio a mim como quem contasse novidades vindas do interior das bandas do sítio do seu Dondô. Mas, além do olhar envelhecido, o que me trouxe foi a notícia de que o seu Dondô, coitado, tinha falecido. O seu Zé Preto vinha com seus bois estradeiros miando de choro na estrada com o carro das rodas de pau. Coitada da Moana, nunca mais tinha visto o seu Dondô desde que este lhe vendera um queijo estragado e ela lhe disse: “Vá pro inferno c’o esse queijo, seu Dondô!...” Agora, a amuada da Moana não sabia se poderia voltar à estrada e dizer pro velho que, afinal de contas, o queijo não estava tão ruim...
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
As árvores sempre balançam na minha mente, jamais param. É uma dança meio necessariamente doida desta minha obsessão por ventos e ventanias vindas de não-sei-onde. Moana bem sabia que eu gostava de vento, mas isso não explicava nem um pouquinho do porque Moana, às vezes, me acordava à noite, abanando meu tórax com a tampa da panela de curau ... êh! Moana, minha Moana!
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
Moana, minha Moana, quantos anos passamos desde o dia em que morremos! Venha comigo agora ressonhar nosso passado, venha Moana, que seremos sempre e sempre o que sonhamos ser debaixo daquele ipê... em noite noturna - sem lua - ao vento acariciador dos nossos espectros... sob a ausência da lua ... Venha Moana, me ama além do que você me amou, porque se eu lhe amar mais do que amei, o dia deixará de pertencer ao nosso passado para ser somente seu! E daí, Moana? Que graça teria?
O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.
RETICÊNCIAS
Pressinto ensanguentado aquela cena
Não sei que tempo abriga, se termina,
Se faço uma oração, ou um poema
Que exista enquanto a lua me ilumina.
Escrevo-me habitando os versos poucos,
Pausando-me ao compasso de tormentos,
Se abrem-se as aspas, versos loucos
Assopram-me vestígios macilentos.
Assim, de letra em letra, me acorrento,
Se vejo-me palavra solto ao vento
Desejos em versinhos como essências...
Sou texto que se fecha sem resposta
Meu sonho te perdeu nas reticências.
VEREDAS
Persigo-te em quimeras e lembranças.
Adianto o passo errante e vou liberto;
Se rasgo o peito ao vento nas andanças,
És tu que me orientas no deserto.
Mas curta é a solidão pra quem resiste
Ao sol que lhe castiga o ser errante;
A luz não pesa mais que um sonho triste
Que brota em teu olhar como um brilhante.
Comigo vem teu rastro sem juízo:
Os rostos orvalhados pelo riso
Imersos neste instante que me invade.
Estás nos pensamentos que demoram,
Trancada na lembrança de onde afloram
Imensas cachoeiras de saudade.
INOCÊNCIA
Olha, amor, eu quase que fico triste,
Mas lembro do rostinho que outro dia
Me dava tanta luz, tanta alegria,
Que acho até que isso nem existe.
Cuide, amor, do meu coraçãozinho
Que é seu desde o momento que demora.
Daí quase nem sinto friozinho:
A dor vem de mansinho e vai embora.
Daquela brincadeira no jardim
Eu tento me esquecer, mas não tem fim,
O tempo de uma infância tão maluca.
É tarde, e eu cresci, não posso mais
Brincar de estar num sonho e não ter paz:
Amar é brincadeira que machuca.
PÉTALA
Enfim, quando este mundo evaporar,
Em brumas de distâncias e chegadas,
E a noite do meu sonho despertar
Em lua clareando a longa estrada...
Ali, caminharemos sem destino,
Quais anjos fugitivos, flutuantes;
E a eles cantaremos nossos hinos
De acordes coloridos e distantes.
Mas antes do momento após a vida
Preciso te encontrar, enfim, querida,
Teus olhos que marejam no horizonte...
Ali, buscar-te à noite mais antiga,
Na pétala do sonho que te abriga,
A gota deste orvalho em que te escondes.
ACALANTO
Em brumas de acalanto me disperso
Qual nuvem de presságios arredios.
Em vez de despedir-me, digo um verso
Às ninfas que me servem calafrios.
Por isso, quase sempre me aquieto
E nunca reverbero o som da dor:
As brumas vêm do sonho predileto
E o vento lhes afasta o sofredor.
Às sendas sinuosas me ofereço
E sigo nas palavras o começo
Do texto que meu fim dará início.
E sinto que, no fundo, alguém descreve
Lembranças de uma vida que não teve
Enquanto joga ao vento o seu resquício...
PÉROLA
Enfim, quando este mundo evaporar,
Em brumas de distâncias e chegadas,
E a noite do meu sonho despertar
Em lua clareando a longa estrada...
Ali, caminharemos sem destino,
Quais anjos fugitivos, flutuantes;
E a eles cantaremos nossos hinos
De acordes coloridos e distantes.
Mas antes do momento após a vida
Preciso te encontrar, enfim, querida,
Teus olhos que marejam no horizonte...
Ali, buscar-te à noite mais antiga,
Na pétala do sonho que te abriga,
A gota deste orvalho em que te escondes.
NOITE
Na Mente que esclarece, a Cor é Espanto...
E o Sonho lhe embriaga em Tons de Morte
Persegue a Explicação, lhe estende o Manto
Repousa nas Cantigas da Consorte...
Pois curta é a Solidão de quem viceja:
No íntimo da Noite existe um Fogo
Que jorra pelos Olhos e traceja
Os Passos que nós damos como um Jogo.
Eu movo o Pensamento em disparada...
Na Relva da Manhã despedaçada
Em Gotas deste Orvalho de Mormaço.
Motivos de existir Eu desconheço
Pois pago pela Dor o justo Preço:
No altar do meu Presente me desfaço.
DESPERTAR
Elevo a mesma prece, inflamo e suo.
Almejo não ter fim, me lanço ao vento,
Adianto um passo a Deus, então recuo.
No templo de uma infância onipresente
Existo na procura e na distância,
O tempo é o meu lampejo consciente
Que agora já se foi, virou lembrança.
É indócil meu destino em quase tudo:
Se busco a voz do sonho, fico mudo,
E temo que este instante seja o inferno.
Mas como ignorar o meu cansaço,
Se a brisa é um ponto em vácuo pelo espaço
No medo visceral de ser eterno?
CANTILENAS
Em meio à brisa doce das esperas,
São musas entoando cantilenas
A quem seguir no sonho e for com elas.
É um místico silêncio em que preciso,
Na tela do momento ou do desejo,
Deixar que o sonho busque o teu sorriso
E acenda a noite escura com teu beijo.
Porém, teu vulto foge pela estrada,
Restando só vestígios, quase nada,
A cena de um encontro sem adeus.
Não sei quando surgiu e se termina
O olhar é meu pincel que te imagina
Inteira e te recria neste breu.
PASSAMENTO
Num misto de cansaço e de distância,
Quem vai saber ao certo quando fui
Presente neste mundo ou na lembrança?
Pois antes que este espaço vire ausência
De alguém, ou de mim mesmo, ou primaveras,
Eu sinto ainda o gosto desta essência,
Das horas desiguais e das esperas.
Ao longe, vêm singrando o rio do nada
Os sonhos desde a infância até a jornada
Que agora neste pôr-do-sol se encerra.
Depois é o pensamento luminoso
Que eleva o sol na paz do seu repouso
Às brumas de outros tempos e outras eras.
sábado, 29 de março de 2008
ALEM DA ESTAÇÃO DE LACERDA FRANCO (de 1993)
O que há é o que havia. Aquela Terra que distante me vem na lembrança, aqueles ares que douravam outeiros - tudo é o Todo imergindo sempre no Tempo, esse Vento do Esquecimento. A fazenda do Retiro, a estação de Lacerda Franco: lugares que hoje não existem menos que fora de mim. Os meus antigos moraram nessas terras que hoje têm roupa de canavial. A Vó sempre conta que o Vô se arrevinha todos os feriados e domingos para noivar. A Mãe nasceu no lugar e o Pai noutra fazenda dos arredores. Hoje, tempo que se passando me sobrevem, tudo se transformou na minha forma de gente: sou o Cafezal que não existe mais, os tico-ticos pousando na copa das Arvores do quintal e a chaminé da Usina Santa Adelaide fumegando imensamente na distância feito mundo em chamas. Componho-me das fábulas que a tia Lola contava: dos lobisomens, sacis, mulas-sem-cabeça, duendes e habitantes da mata ao redor dos sítios, fazendas e outras querências. Brinco de trenzinho com latas de óleo. Imagino histórias de mundos que não existiriam mais se não fossem verdadeiros. Traspasso horizontes relembrando auroras, dessas tantas que se foram pro Jamais.
Dois Córregos, terra que me veio por Além desde nascido, guarda-me em cada rua que não passei por antes. Não me imagino em desconhecendo a Avenida da Saudade e as árvores da praça do Fórum; parece que de mim sempre foram pedaço como lembrança do Nunca-Mais, essa ausência abissal que fica na gente feito espinho encravado no lugar nenhum.
De tudo o que me preenche de sonho e tudo, o Tempo é que me fascina por não ter lugar em meu peito. Coração de gente é pra desfazer o que se convenciona feito. Por isso uma estrada, feito um rio, jamais tem começo e fim, é sempre continuação de outra.
De repente, os Estradões que cortam as plantações e pastos, as pinguelas e as minas, tudo se me reconverte em aperto de Saudade. Concebo-me, sem reportações, que perto da Ponte do Veadinho havia uma Grande Paineira. Sempre que eu a via, no compreendimento me dispersava diante de seus espinhos e frutos algodoados. Colossal. Braços abertos: Meu Destino - esse que não é de ninguém que não me seja eu mesmo.
Do que narro nestas linhas tortuantes, não vi sequer um relâmpago. Por isso reconheço que este mundo inteiro herdei por possentimento. A Luz desse Passado, que transmito como se não fosse minha, é o reflexo dos olhos do vô Dito contando a história do Joaozinho e Mariquinha ao pé do Fogão-de-Lenha. Como se eu fosse aquele interlocutor silencioso que fornecia o espelho para Riobaldo conversar consigo mesmo.
Doideira é querer esfumaçar a fumaça; não me envio a missões desmissionadas. Prefiro reabrir portas a fechar janelas, desenhar serpentes a caçar minhocas. Lembro-me, como se não fosse hoje, da escuridão e da meninada correndo a caçar vaga-lumes no descampado: "Pagalém-tem-tem... seu pai tá aqui sua mãe tamém... pra fazer curau na culhé de pau " - e todos corriam desendoidados a contraventar os verdinhos iluminados, sentindo a solidão do ventinho no peito. As matas se infechavam de si mesmas, comportando a virgindade de suas trepadeiras, sem margens a invasores - por xeretas que fossem, mesmo empunhando colher de pau. Éramos meninos, rapazotes, que se desembestavam pelos campos sem medo de pisar em estrume de vaca, encantados que ficávamos pelas estrelinhas verdes flutuantes, os pagaléns.
De instante, quando me recomponho no pensar, irrompe-me nos sentidos um velho carroceiro cruzando a estrada, de rádio ao lado ouvindo Tião Carreiro e Pardinho, como quem fosse do Retiro ao sítio do Inacinho, contorcendo o areião nas rodas ondeantes de madeira - que hoje vejo enfeitando um casarão chique, como se o Presente a tudo ocultasse, menos o caminho que o trouxe: o Passado e o Tempo. Vinha de mansinho, sem pressa de Não-Chegar.
Seu José, peão competente, não desinclinava o chapelão de palha, olhando fixamente o estradão sem tansolhar, picando fumo-de-corda. Seu cavalo, Negro, salpicado de pintas pretas num pleonasmo vicioso, não arcava perante o peso que fosse a ser transportado. O cheiro de café maduro rodeava o velho, e o Mundo. Havia um Progresso a ser percorrido, uma andança no mais-adiante.
Na distância erigia-se o sol sem que ninguém o erigisse. O clarão sobreposto à linha horizontal dourava a mente e iluminava o caminho. Alguém dirá com razão: "Imagem pobre, essa, sem cabeça ou perna!" Mas no sonho é assim, senão não é sonho de se não parar de sonhar pela vida inteira! Aquele homem, pelo estradão afora, rasgando chão nas rodas da carrocinha vermelha, é o significativo do meu Depois, como um símbolo por onde interpreto na compreensão qualquer demanda. Deus e o Diabo andam juntos pelo caminho, pois é Deus quem ilumina o descampo, enquanto o Demo projeta as sombras no chão. Quanto a mim, que atributo me sobraria? Caminhar. Por isso não sou o caminhante, como o velho José, sou O Caminhar. Sou o trem nunca mais vai parar na estação de Lacerda Franco.
Na história que o vô Dito contava, Joaozinho e Mariquinha avistaram na densa mata, em que estavam perdidos, uma luz miudinha quase morrediça na escuridão. Nisso me aflora, nos olhos de dentro, os olhos do Vô: brilhando num brilhar de olhos de quem me trazia o Passado - essa Montanha que esconde o Horizonte!












