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O Contador de Histórias



- Pai, lembro-me de quando você chegava em casa tarde, eu corria para saber como tinha sido o seu dia - perguntou minha filha Natália, no auge dos seus doze anos. Você dizia que tinha matado leões no seu trabalho, que estava exausto. Eu acreditava mesmo que era verdade, acha? Lembra que uma vez você chegou e me pôs no colo, contou que tinha matado dois leões e um dragão no mesmo dia?!  Lembra-se da história dos ciclopes? Eu pensava: puxa vida, meu pai é mesmo demais.

- Lembro sim, filha. E hoje você acha que foi mentira?

- Não pai, eu acho que foram histórias.

Este foi um diálogo devastador. Deixei de ser herói matador de leões para ser um contador de histórias. Talvez todo contador de histórias cultive certo heroísmo para manter vivo seu enredo até o fim. O enredo é uma espada que a palavra empunha para abrir caminho pela floresta da imaginação. A história que não termina carrega consigo o estandarte da terra estranha que a memória habita.

Lembrei-me dos meus oito anos. Chegava o domingo e meu pai tentava descansar. Importunava-lhe os ouvidos para construir uma casinha para o cachorro vira-lata. Ele grudado no rádio de pilha e eu queria ouvir quantas toneladas de cana ele havia cortado. Dizia ele que deixava até os mais jovens da turma para trás. Não era um cortador de cana qualquer. Herói precisa do improvável, da superação. E era mais fácil entender toneladas de cana do que leões. Ele anotava essas informações em papéis de pão, como provas das suas façanhas nos canaviais. Um dia meu pai desistiu de anotar tudo isso. Só escrevia lista para a despesa do mês e o resultado do jogo do bicho. Recebeu um certificado de instrutor de corte de cana e pendurou na parede. Fiquei com medo de perguntar o motivo.

No ritual da infância, a expectativa era sagrada. Não havia essa coisa adulta de desistir dos pequenos desejos em nome dos grandes projetos. Projeto de vida é um sonho com chance de dar errado; e isso não passa pela cabeça da criança. Até hoje espero minha casinha de cachorro.

Atualmente, é o meu pequeno Gabriel de cinco anos que precisa das minhas histórias, desta vez sobre dinossauros. Não digo mais que matei leões no trabalho, porque isso nem é politicamente correto. Não sei se falar de animais extintos me dá maior vantagem, porém sua mente é faminta por confrontos de gigantes. E assim será até o dia em que se der conta de que o tempo vem como asteroides implacáveis para extinguir seus dinossauros de agora. Pelo menos nestes novos enredos, os bichos brigam entre si, poupando esse velho herói.

- Pai, conta de novo a história do tiranossauro rex pra mim? Se ele brigar com o carnotauro, quem vence, hein pai? Pai!!!!!! Não vai responder não?

Nisso a Natália volta para a conversa:

- Pai, o ciclopes tinha um olho ou dois?

- Um olho só, filha, um só.

Emerson Batista

11 comentários:

Thami disse...

Muito bem mocinho..."Projeto de vida é um sonho com chance de dar errado; e isso não passa pela cabeça da criança" (Palavras suas). Me remete a uma passagem muito bonita e interessante do texto composto por frases do W. Shakespeare, O Menestrel...segue o trecho.
"Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens…Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso."
O contador de histórias tem uma importância que supera qualquer "matador de leões", o contador de histórias nunca morre, tem efeito a longo prazo! ;) Bom que sua mocinha percebeu/concluiu isso, sábia mocinha! =)

Poeta da Colina disse...

Há outras formas de heroísmo ainda.

Lu... disse...

Que delicia ler isso...Me fez lembrar dos meus heróis.Eles não morreram,só estão guardados nas minhas mais preciosas lembrançãs,as vezes tenho vontade de tira-los de lá...Mas a rotina diaria os matariam...por tanto é melhor que fiquem lá,e quando for contar minhas histórias p alguem eu os buscarei!

Poetisa Negran disse...

Pra se ter heróis, é só não matar a criança interior, só ela é capaz de acreditar em heróis... Lindo post!!

Nanda disse...

Sem dúvida um dos textos mais lindos que eu já li.
Principalmente pq não tive nada disso na infância. Meu possível historiador sempre morou longe de mim...

O importante é que para seus filhos, vc tem coragem!!

beijo!

alfacinha disse...

engraçado para ler

Michele disse...

Desenvoltura perfeita. Leitura agradável.

Adoro tua escrita. Sempre curto tuas frases no 'twitter'

Beijos amigo,
Mih

Alan Tykhé disse...

E quem tem o direito de dizer que os dragões eram apenas moinhos de ventos? Quem irá duvidar que realmente não se mata leões no trabalho? São histórias e estórias, que importa se um seja uma ou outra, para as crianças o que importa é viver o sonho da imaginação que é sempre real!

Abraços
http://pensamentosifragmentos.blogspot.com

Nane disse...

Lindo!

Fabricia Rodrigues disse...

'' Projeto de vida é um sonho com chance de dar errado...'' Na verdade, mais chances de errara do que acertar. Quando se sonhe, não se mede consequências nem limites, e talvez daí resultem tantos desenganos nesse mundo ''adulto.
Mas, seu texto, que pintura. Se conhecesse melhor as belas artes póderia fazer uma compraração, contudo, não tenho essa qualidade. Não entendo como há quem não se comova ou não se sinta tocado por um texto assim, que nos remete as nossas próprias histórias, que tem uma visão de vários aspectos, desde a nossa visão dos pais, dos sonhos que tivemos e do nosso hoje.
Não sei qual foi sua intenção exata ao escrever o texto, mas sei que em mim teve um efeito nostálgico.

Sophia Telles disse...

Eu quase chorei, maraviloso.

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