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ALEM DA ESTAÇÃO DE LACERDA FRANCO (de 1993)

O que há é o que havia. Aquela Terra que distante me vem na lembrança, aqueles ares que douravam outeiros - tudo é o Todo imergindo sempre no Tempo, esse Vento do Esquecimento. A fazenda do Retiro, a estação de Lacerda Franco: lugares que hoje não existem menos que fora de mim. Os meus antigos moraram nessas terras que hoje têm roupa de canavial. A Vó sempre conta que o Vô se arrevinha todos os feriados e domingos para noivar. A Mãe nasceu no lugar e o Pai noutra fazenda dos arredores. Hoje, tempo que se passando me sobrevem, tudo se transformou na minha forma de gente: sou o Cafezal que não existe mais, os tico-ticos pousando na copa das Arvores do quintal e a chaminé da Usina Santa Adelaide fumegando imensamente na distância feito mundo em chamas. Componho-me das fábulas que a tia Lola contava: dos lobisomens, sacis, mulas-sem-cabeça, duendes e habitantes da mata ao redor dos sítios, fazendas e outras querências. Brinco de trenzinho com latas de óleo. Imagino histórias de mundos que não existiriam mais se não fossem verdadeiros. Traspasso horizontes relembrando auroras, dessas tantas que se foram pro Jamais.

Dois Córregos, terra que me veio por Além desde nascido, guarda-me em cada rua que não passei por antes. Não me imagino em desconhecendo a Avenida da Saudade e as árvores da praça do Fórum; parece que de mim sempre foram pedaço como lembrança do Nunca-Mais, essa ausência abissal que fica na gente feito espinho encravado no lugar nenhum.

De tudo o que me preenche de sonho e tudo, o Tempo é que me fascina por não ter lugar em meu peito. Coração de gente é pra desfazer o que se convenciona feito. Por isso uma estrada, feito um rio, jamais tem começo e fim, é sempre continuação de outra.

De repente, os Estradões que cortam as plantações e pastos, as pinguelas e as minas, tudo se me reconverte em aperto de Saudade. Concebo-me, sem reportações, que perto da Ponte do Veadinho havia uma Grande Paineira. Sempre que eu a via, no compreendimento me dispersava diante de seus espinhos e frutos algodoados. Colossal. Braços abertos: Meu Destino - esse que não é de ninguém que não me seja eu mesmo.

Do que narro nestas linhas tortuantes, não vi sequer um relâmpago. Por isso reconheço que este mundo inteiro herdei por possentimento. A Luz desse Passado, que transmito como se não fosse minha, é o reflexo dos olhos do vô Dito contando a história do Joaozinho e Mariquinha ao pé do Fogão-de-Lenha. Como se eu fosse aquele interlocutor silencioso que fornecia o espelho para Riobaldo conversar consigo mesmo.

Doideira é querer esfumaçar a fumaça; não me envio a missões desmissionadas. Prefiro reabrir portas a fechar janelas, desenhar serpentes a caçar minhocas. Lembro-me, como se não fosse hoje, da escuridão e da meninada correndo a caçar vaga-lumes no descampado: "Pagalém-tem-tem... seu pai tá aqui sua mãe tamém... pra fazer curau na culhé de pau " - e todos corriam desendoidados a contraventar os verdinhos iluminados, sentindo a solidão do ventinho no peito. As matas se infechavam de si mesmas, comportando a virgindade de suas trepadeiras, sem margens a invasores - por xeretas que fossem, mesmo empunhando colher de pau. Éramos meninos, rapazotes, que se desembestavam pelos campos sem medo de pisar em estrume de vaca, encantados que ficávamos pelas estrelinhas verdes flutuantes, os pagaléns.

De instante, quando me recomponho no pensar, irrompe-me nos sentidos um velho carroceiro cruzando a estrada, de rádio ao lado ouvindo Tião Carreiro e Pardinho, como quem fosse do Retiro ao sítio do Inacinho, contorcendo o areião nas rodas ondeantes de madeira - que hoje vejo enfeitando um casarão chique, como se o Presente a tudo ocultasse, menos o caminho que o trouxe: o Passado e o Tempo. Vinha de mansinho, sem pressa de Não-Chegar.

Seu José, peão competente, não desinclinava o chapelão de palha, olhando fixamente o estradão sem tansolhar, picando fumo-de-corda. Seu cavalo, Negro, salpicado de pintas pretas num pleonasmo vicioso, não arcava perante o peso que fosse a ser transportado. O cheiro de café maduro rodeava o velho, e o Mundo. Havia um Progresso a ser percorrido, uma andança no mais-adiante.

Na distância erigia-se o sol sem que ninguém o erigisse. O clarão sobreposto à linha horizontal dourava a mente e iluminava o caminho. Alguém dirá com razão: "Imagem pobre, essa, sem cabeça ou perna!" Mas no sonho é assim, senão não é sonho de se não parar de sonhar pela vida inteira! Aquele homem, pelo estradão afora, rasgando chão nas rodas da carrocinha vermelha, é o significativo do meu Depois, como um símbolo por onde interpreto na compreensão qualquer demanda. Deus e o Diabo andam juntos pelo caminho, pois é Deus quem ilumina o descampo, enquanto o Demo projeta as sombras no chão. Quanto a mim, que atributo me sobraria? Caminhar. Por isso não sou o caminhante, como o velho José, sou O Caminhar. Sou o trem nunca mais vai parar na estação de Lacerda Franco.

Na história que o vô Dito contava, Joaozinho e Mariquinha avistaram na densa mata, em que estavam perdidos, uma luz miudinha quase morrediça na escuridão. Nisso me aflora, nos olhos de dentro, os olhos do Vô: brilhando num brilhar de olhos de quem me trazia o Passado - essa Montanha que esconde o Horizonte!

Emerson Batista

2 comentários:

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado

felipe castilho disse...

voltei aos lugares que vc falou, obrigado pelo passeio

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