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DEPOIS DE MOANA VEM A HISTÓRIA (de 1993)

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Nem me recordo mais daqueles estradões de areia queimando-me os pés. Queria perscrutar minha consciência dos momentos que se passaram naqueles dias, mas só me restou um sentimento de saudade e falta de ar. Moana sempre me dizia sermos fortes demais para confessarmos o passado; mas que direi eu a Moana? Ah, Moana, você não entende nada das coisas da estrada... nem das noites cobertas de ventos enlouquecidos.

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Imagino ter sido assim meu passado: cheio de pessoas com rostos deformados pela ação do desejo de como desejaria que elas fossem. Eu queria muito desejar a realidade futura, mas o presente só me permite idealizar o passado, que é a única matéria pura que minha memória consegue preservar. Moana jurava de pés-juntos que jamais seríamos escravos do caminho. Mas Moana desistiu. Ah, Moana, minha Moana, onde está você? Sua sombra?

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Eu nunca vou me esquecer que um dia já fui vaqueiro, porque o vaqueiro que eu fui jamais se esqueceu que um dia matou seu gato preferido tentando montar-lhe o dorso - pobre Xaxá. O Xaxá era meu companheiro quando a Moana nem se lembrava de mim para ficar mexendo com aquele estúpida roseira sem rosas.

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Um dia, Moana estava assistindo televisão, quando passou pela frente da nossa casa um carro-de-boi que comia chão, levantando até poeira daquela areia limpa e seca de inverno. Ela veio a mim como quem contasse novidades vindas do interior das bandas do sítio do seu Dondô. Mas, além do olhar envelhecido, o que me trouxe foi a notícia de que o seu Dondô, coitado, tinha falecido. O seu Zé Preto vinha com seus bois estradeiros miando de choro na estrada com o carro das rodas de pau. Coitada da Moana, nunca mais tinha visto o seu Dondô desde que este lhe vendera um queijo estragado e ela lhe disse: “Vá pro inferno c’o esse queijo, seu Dondô!...” Agora, a amuada da Moana não sabia se poderia voltar à estrada e dizer pro velho que, afinal de contas, o queijo não estava tão ruim...

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

As árvores sempre balançam na minha mente, jamais param. É uma dança meio necessariamente doida desta minha obsessão por ventos e ventanias vindas de não-sei-onde. Moana bem sabia que eu gostava de vento, mas isso não explicava nem um pouquinho do porque Moana, às vezes, me acordava à noite, abanando meu tórax com a tampa da panela de curau ... êh! Moana, minha Moana!

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Moana, minha Moana, quantos anos passamos desde o dia em que morremos! Venha comigo agora ressonhar nosso passado, venha Moana, que seremos sempre e sempre o que sonhamos ser debaixo daquele ipê... em noite noturna - sem lua - ao vento acariciador dos nossos espectros... sob a ausência da lua ... Venha Moana, me ama além do que você me amou, porque se eu lhe amar mais do que amei, o dia deixará de pertencer ao nosso passado para ser somente seu! E daí, Moana? Que graça teria?

O dia de sol não passava de um dia. Enquanto isso, eu me perdia sem saber que não sonhava, mas vivia.

Emerson Batista

10 comentários:

Maria Ester disse...

Este é O Conto!
Magnífico!

Maíra disse...

Oiii!!
=D

consegui fazer um blog aqui!!

lindo contooo!!

Beijão!!

Espartilho de Eme disse...

Pela madrugada! Que lindo conto, menino de Bauru. Visita-me no espartilho, viu? Beijos

Bruno Kayke disse...

mto bom..
vou ler sempre
de uma passadinha no meu
abraço

Ariadna disse...

Passei por aqui pois estou divulgando meu blog e gostei muito dos posts. Bem interessante. Visite o meu, ok. Tenha uma ótima semana.

Cláudia Magalhães disse...

Que belo, seu conto! Cheio de poesia... Lindo o seu espaço!
Voltarei, sempre! Um grande abraço!

Maria Ester disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Ester disse...

Incrível. Mais que nunca esse conto é o presságio, o anúncio de um tempo que foi e é sem nunca ter sido... Não sei. Há algo nele que sempre ressoa e sempre ressoará em minh'alma. Algo que não se explica.
Leio e lerei sempre. Ficará comigo por toda a eternidade, ainda que seja ela apenas sete palmos abaixo da terra.

Naty disse...

Pai, é o melhor conto que ja li. Tenho orgulho em ser sua filha!

Anônimo disse...

Por que nao:)

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