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CIGANO DE MIM MESMO (de 1994)



Certa vez eu passava por aquela trilhazinha que fica do lado esquerdo como quem sai pela via de acesso à cidade de Dois Córregos. Era tarde caída. Eu vinha subindo como quem viesse do bairro Arco Íris para o centro da cidade.


De instante, deparei-me com a garganta da noite engolindo o horizonte de trás da torre da igreja matriz. No céu, aquela cor avermelhada como sangue esparramado; na terra, o tom rasteiro da vegetação longínqua. Não era uma tarde como todas as outras.

Senti um cheiro de capim queimando. Procurei-lhe a origem seguindo no olhar a fumaça que envolvia o pasto inteiro. Duas personagens sem rosto faziam fogueira sobre o leito imaginário do córrego que era fundo e hoje é lajeado como o outro.

A sensação não me era estranha. Lembrei-me de algo vivido ou sonhado na infância. Não era capim queimando, era incenso de cigano! Parecia que estavam realizando algum ritual sagrado. Foi então que realmente percebi nos sentidos todos que aquele aroma preenchia-me de corpo inteiro como se me procurasse dentro do meu corpo. Algo de encantador me fazia palpitar dos nervos. Uma força me arrastava em sonho para perto do lugar onde estavam. E a fumaça evidenciava a penumbra crepuscular.

Eu já estava quase chegando no asfalto em passos leves, e o cheiro dispersava-se. Paro. Olho para trás. Caminho um pouco. As duas personagens agora se me afiguravam como dois vultos escondidos na cortina do entardecer, onde luz nenhuma consegue desfazer o que não é escuridão - tudo é sombra.

De onde eu estava, percebia a base do fogo como se fosse um dragão dormindo embriagado. Iniciou-se uma luta dentro em mim. Duas forças me compeliam no movimento horizontal: uma atraía, e a outra também para o mesmo lado: o do fogo. Não ofereci resistência alguma. Caminhei a princípio lentamente, e depois em disparada, absorvendo o espaço à minha volta. Cada vez mais perto, perto...!

Ofegante, ainda ao longe consegui ver o rosto das duas personagens, apenas contornados pela claridade do braseiro daquela fogueira sem fogo. Parei defronte aos dois e, sem nada perguntar, apenas hipnotizado pelo semblante idêntico deles como um tríplice espelho, sentei-me no chão no lugar de um, que seguiu caminho no meu lugar.

(Publicado em 1994 no Jornal O Democrático em Dois Córregos-SP)

Emerson Batista

3 comentários:

Teia de Textos disse...

Sabe que me lembro da tarde em que você escreveu esse conto. REalmente havia ciganos naquele caminho que você utilizava para ir à minha casa. Próximo ao local que batizamos de Estrada da Moana... Dois Córregos tem lugares mágicos que você soube metaforizar em textos lindíssimos.
Amei a foto!!!
Beijo. Boa noite! Vou dormir!! hehe

Teia de Textos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gui disse...

Por um instante pensei que os vultos se amalgamavam à ilusão opaca que a fumaça incensória produzia.

Grande texto de um grande artista.

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