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PARTIR, UM VERBO HUMANO *


É certo que ainda muitas vezes em nossas vidas encontraremos pessoas diferentes, e outras iguais. Talvez nem tenhamos tempo de cumprimentá-las, ou demonstrar-lhes nosso carinho ou desprezo gratuitos. Algumas terão apenas nosso cumprimento, outras apenas o adeus.

Diz um poeta que na verdadeira despedida há duas partidas, de dois corações, em duas partes desiguais. Este é o momento em que mais profundamente nos revelamos perante alguém que estimamos - ou nem tanto. Entre um "bye bye!" e um "até logo!", muito se diz. O jeito, a entonação da voz, o olhar.

Se por um lado há os namoradinhos que não se despedem na porta sem antes se darem os mil e duzentos beijinhos, por outro existem os tímidos que simplesmente desaparecem na fumaça. A gente normalmente diz "Ué? Pra onde foi o fulano?" Mas numa dessa ele já está bem longe e nem "tchum" com a gente.

Parece que tanto o cumprimento (alguns dos quais já mencionados nesta coluna) quanto às despedidas são as fronteiras do relacionamento interpessoal. Chegar de supetão num lugar onde pessoas conversam, por exemplo, é praticamente violentar-lhes a intimidade. É preciso carinho na voz, no jeito, no gesto - o que muito se assemelha a um ritual de admissão. Nas despedidas não pode ser diferente. Sair sem despedir-se, por exemplo, é ficar como um fantasma no meio dos outros. No modo pelo qual alguém se despede, sabemos se já está com saudades ou simplesmente aliviada.
Muitas vezes nos despedimos durante o dia. É o beijinho na namorada, o gesto com as mãos para quem passa, o tchauzinho despretensioso na roda de amigos. Como não seria diferente, "até logo", "tchau" e "adeus" possuem seus descendentes diretos ou estrangeirismos como substitutos.

As línguas estrangeiras tem contribuído nessa área com expressões tipo "bye" (inglês), "hasta mañana" (espanhol) e "au revoir" (u revuá, francês). Não é muito raro encontrar-se brasileiros arranhando nos estrangeirismos. Normalmente são os que desejam deixar impressão de pessoa "culta", "viajada" ou fresca mesmo (bicha que se preze adora o "bye bye", bem espaventado). Dentre os seguidores do "bye bye", destacamos os adolescentes que na quinta série já mostram que aprenderam alguma coisa nas aulas de inglês.

A despedida em francês, que muitos acham língua de fresco, é particularmente interessante. Se a gente prestar bem atenção nos "au revoir", dá prá perceber que marmanjo não fica muito bem fazendo biquinho. Ainda mais se o sujeito se propuser a falar "menu"!


Seguindo a mesma regra dos cumprimentos, as despedidas variam em gênero, número e grau.

Há o "tchau" , "até logo" e "adeus" clássicos e seus descendentes mutantes ou simplesmente bastardos. Nesses três já notamos certas diferenciações. O "adeus" é aquele que normalmente ninguém ousa dizer. O negócio de dizer "adeus" muito se parece com o "nos vemos no céu" e ninguém quer ter certeza de que vai beijar a mão de São Pedro muito cedo, não é verdade? O "até logo", como obviamente vocês vão imaginar, quer dizer "até logo" mesmo. O "tchau" é a despedida mais versátil. Serve de "adeus" e "até logo". É a opção mais simples e cordial nas expressões de despedida.

O bicho-grilo não abre mão do "falô, cara!" Os amineirados, caboclos e afilhados do Jeca Tatu preferem "té mais", "inté" ou "té logo". Os jovens da geração Michael Jackson militam no tchauzinho seco, já os da geração Guns and Roses preferem enxugar um pouco o "falô, cara!" (típica do bicho-grilo) e aterrizar no "falô", que mostra bem que o cara não quer mais papo e prefere "curtir uma na dele".

Muitas pessoas possuem características especiais em se tratando de despedidas. Um caso interessante são as "não-me-pede-que-eu-fico". São muito comuns nas visitas entre comadres em que uma diz "Bom, comadre, então eu já vou indo..." e a outra responde "É cedo ainda, comadre! Já vai mesmo?". Depois disso a cena se repete pelo menos dez vezes antes de a comadre visitada começar a pigarrear ou picar cebola, em nítida expressão de constrangimento.

Tudo isso compõe o fenômeno humano chamado Encontro. Em suas vertentes e variantes - cômicas ou trágicas, cínicas ou mágicas, todos estamos submetidos à lei do relacionamento com os outros. Raul Seixas, em sua música "Canção para Minha Morte", agoniza: " ...a cada vez que me despeço de uma pessoa, pode ser que ela esteja me vendo pela última vez". Um simples "até logo" pode ser o velho e maldoso "adeus" trajando seu vestido de seda. Na verdade, as despedidas são pequenas mortes. Tudo o que não vemos encontra-se adormecido em algum tempo, em algum lugar.

É certo que mais importante do que cumprimentar o dia que nasce, é necessário despedir-se do que se foi. Ainda muitas vezes em nossas vidas encontraremos pessoas diferentes, e outras iguais. Talvez nem tenhamos tempo de cumprimentá-las e demonstrar-lhes nosso carinho ou desprezo gratuitos. Algumas terão apenas nosso cumprimento, outras, apenas o nosso Adeus.


(* Publicado no jornal "Independente", em Dois Córregos-SP, no ano de 1994)

Emerson Batista

2 comentários:

Maria Maria disse...

Muito boa essa prosa. Filosófica, mas real. Beijos

Anônimo disse...

Pai como pode vc escrer tão bem.

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