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O Tempo de um Abacateiro

Tínhamos uma relação de muita cumplicidade. O abacateiro me servia de esconderijo quando minha mãe me procurava e eu não queria ser encontrado. Nem sempre as crianças querem ser encontradas, às vezes se escondem nas futuras memórias que, quando adultos, necessitarão ter.
 

Morávamos numa chácara e o pomar no quintal possuía diversas outras árvores frutíferas. Eu havia tentado antes fazer meu esconderijo na jabuticabeira, mas nas floradas era necessário respeitar as jabuticabinhas que nasceriam nos seus galhos. Cada subida era uma devastação!
 

O abacateiro, ao contrário, era muito mais robusto e alto, e também próximo de casa. No entanto, uns diziam que corria o risco de dar um vento e ele cair sobre o telhado da nossa casa, gerando grandes danos e aconselhavam que o abacateiro fosse derrubado. De fato, era um pouco inclinado para a direção da casa. Apelidei-o então de Torre de Pizza. Mas derrubá-lo estava fora de cogitação! Isso jamais eu permitiria! Eu o defendia desse perigo com choros e chantagens.
 

Lembro-me do pavor de uma vez quando subia em seus galhos e um deles se partiu. Despenquei de certa altura e fui salvo por outro galho alguns arranhões abaixo. Ali aprendi que não importa que uma árvore seja enorme e dê frutos suculentos, ela sempre pode ter algum galho podre que irá nos derrubar. A sensação de pisar em um galho podre é como dar a mão a quem consideramos amigo e que nos trai logo em seguida, e que esconde o último chiclete para não nos dar.
 

Certa vez, ouvi no rádio:
 

- Triiiiiiiiiiiiin Olha a hora! Cebolinha e cebolão marcando a hora certinha, certinha. Aqui pontualmente cinco horas da tarde. Olha... Dona de casa que tem roupa no varal, vamos recolher porque a chuva vem aí.
 

Senti um cheiro de terra molhada, cheiro de moringa de barro, de pote de água. As saúvas partiam em disparada para seus formigueiros, deixando as folhas já cortadas pelo caminho. Já estava escuro demais àquela hora da tarde, e a brisa revoltosa prenunciava o borrão de nuvens escuras no horizonte. Havia uma fumaça branca descendo do céu, varrendo o cerrado e os canaviais. Pelo vitrô da cozinha, pude observar aquele véu que fazia um meio arco-íris do descampado ao céu.
 

- Mãe – disse eu - não se preocupa comigo, estou no quarto estudando e logo vou dormir.

Ao contrário do que normalmente fazia em dias de chuva, trancando-me no quarto, ocorreu-me outra ideia. Senti um chamado em forma de arrepio. Saí pela porta da sala e corri para o quintal. Subi rapidamente no abacateiro, escalando seu tronco cascudo, cheio de galhos ainda duvidosos, alguns podres e outros silenciosos. Subi o mais alto que pude sem temer a ventania do temporal que rugia chegando.
 

Subi receoso neste dia, pois subiria com o tronco e os galhos secos, mas desceria com eles molhados. Depois de anos me fechando em casa devido aos medos, eis que minha adversária mais temida se insurgia e eu estava disposto a enfrenta-la. Revesti meus brios de todo desacato para confrontar nossos destinos. E, afinal, o medo é sempre uma ponte que nos convida à irreverência.
 

Estando já na copa do abacateiro, comecei a sentir movimentar pelo vento para um lado e para o outro, e para todos os lados, inclusive para dentro de mim. Sentia que ele poderia desmoronar a qualquer momento em cima da casa, comigo em cima. Caíam as primeiras gotas de chuva multiplicadas no contato com as folhas grossas do abacateiro. Gotas geladas quebradas nos galhos. Gotas amortecidas nas teias-de-aranha entre os caules das folhas. Alguns relâmpagos nos fotografavam.
 

Fechei os olhos como quem se deixa balançar num quarto escuro, indiferente ao mundo exterior. Sentia dentro das minhas pálpebras flashes rosados a cada novo relâmpago. Meus soluços calavam os trovões. Por vezes, pareciam visões de seres me rondando. Ali permaneci agarrado ao tronco em sua parte mais frágil, mais próxima do ponteiro. É sempre no ponto mais alto que se está mais frágil.
 

Quase perdi toda a coragem quando aumentou a chuva. Sentia espirrar água dos meus lábios quando expelia o ar pela boca. Corpo molhado e vento gelam os ossos e dão friagem, segundo meus avós. Nada que um chá de erva-cidreira não curasse. 

Pensei em descer imediatamente, mas não conseguia me desenroscar dos galhos em que havia me grudado. Meus braços haviam dado um laço entre dois galhos.
Para aumentar minha provação, agora ainda vinham os trovões mais fortes e a noite abria sua garganta enorme no horizonte oposto ao sol.
 

De um lado, punha-se o sol, do outro, o breu da noite nublada engolindo com raios o céu. Isto não estava nos meus planos: enfrentar, além da chuva, também a noite. Todo pavor estava presente naquele momento: o vazio da noite e seu abismo sem sol nem estrelas, além da água que a tudo preenche e pode dissolver e afogar. Ora fechava os olhos, ora enfrentava a tempestade como no mastro de um navio sobre águas tenebrosas. Fechar os olhos era resistir.
 

E continuamos ali, o abacateiro e eu. Atravessou-me a vontade de pedir ajuda, mas era o momento crucial que me encheria de vergonha depois.
 

Assim, foram se acalmando a noite, a chuva, o vento, o medo, as lágrimas, a tremedeira de frio, o gozo do dever cumprido. Ao final de algumas horas, fiquei só. Comecei a descer do abacateiro pelos galhos molhados, na dúvida sobre o momento em que poderia encontrar outro galho podre. Já me considerava o vencedor do desafio. Havia resistido o suficiente na copa do abacateiro.
 

Mas nem sempre a sorte protege os valentes. Na descida, novamente um galho se rompeu. Desejei um par de asas, nem que as construísse com as folhas grossas do abacateiro. Novamente, como a sorte sai e volta quando quer, depois de alguns arranhões, enrosquei-me em outros galhos abaixo. Estes, por sorte, já estavam próximos ao chão. Daí mais um pulo e estava em terra.
 

De tão escuro, quase não encontro o caminho de volta, mesmo sendo próxima a casa. Entrei deixando rastros de terra por todo o caminho até o banheiro.
 

No dia seguinte, mal havia acordado, ouvi gritos vindos de fora: 
Caiu, caiu! O abacateiro caiu!
 

O que? O abacateiro caiu? Quando, como?
 

Os vizinhos vieram saber se alguém havia se machucado. Em algum momento da noite, devido à chuva e ao vento, o abacateiro não resistiu e, de fato, veio ao chão.
 

- Olha dona – disse à minha mãe um vizinho - foi milagre esse abacateiro não ter caído antes. Eu já estava até imaginando ele arrebentar esse cômodo daqui. Vocês podem ver que quase todos os galhos estavam podres, inclusive o tronco. E foi um milagre ele ter caído deste lado, porque, veja a senhora, ele estava torto era pra cair em cima deste quarto aí, ó, e ele caiu longe.
 

O quarto que havia escapado era o dos meus pais.
 

Deste dia em diante, não houve outros dias. Afinal, onde eu estava quando o abacateiro caiu? Caiu sem vento? Caiu sem medo? Caiu sem mim?

Será que, na verdade, me fui com o vento, me perdi numa brisa e hoje estou morto vivendo na lembrança de alguém? Será que a infância é história ou vestígio das fantasias desnecessárias? Me pego pensando se tudo não passou de um duelo do tempo, se passei aquela noite dormindo, se o vento foi minha infância, se a noite foi a inocência, e se o abacateiro sou eu.

Emerson Batista

4 comentários:

Teia de Textos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Teia de Textos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nanda disse...

Um dos textos mais lindos que eu já li... minha imaginação fluiu e imaginei que o abacateiro não tinha caído antes pq precisava do contato com o menino, tinha esse propósito!

Lindo texto, de verdade!

Meu beijo!

Anônimo disse...

Conheci seus textos há pouco tempo e estou simplesmente encantada! Sempre que os leio penso ser você o personagem das histórias, tão melancólico, tão triste, com a inocencia de uma criança com medo do mundo! Você e seus textos são adoráveis criações de Deus, que de quando em quando nos presenteia com seres sublimes! Que a PAZ esteja sempre em seu coração...

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