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A Borboleta Azul de Schoenstatt


Houve um tempo em que fui seduzido totalmente pela chama da vocação religiosa. Queria ser padre missionário, puxador de procissão, pregador fervoroso. Quanto mais distante fosse a missão, perfeito! Se morresse mártir, tanto melhor. Afinal, era minha luta pelos oprimidos! Asseguraria minha subida ao céu sem pegar fila. Se bem que se, além do céu, houvesse setenta virgens me esperando, eu preferia. Enfim, luxúria é pecado capital, né, e já estava de bom tamanho a chance de escapar do inferno e fazer algo de bom pelo mundo.

Assim, vivi dois anos muito importantes naquele seminário da ordem de Santo Agostinho. Cumpri horários, orei, tentei me adequar, limpar o pátio, lavar roupas e esquentar comida nos finais de semana. Quando era minha vez de cuidar das refeições, todos já sabiam que o arroz teria um leve sabor de queimado. Há homens que sabem cozinhar, mas a maioria sucumbe a certo sadismo. Faço parte da maioria. Nestas ocasiões, preparava a refeição e não jantava com os demais. Não ficava para ouvir xingamentos em espanhol, mineirês e paulistês.

Estudei em colégio público estadual, externo ao seminário, o que me expunha ao contato com adolescentes também. Pensava que minha enorme cruz de madeira no peito faria com que meu coração batesse sossegado apenas para Jesus. Na verdade, era mais um alvo do que um escudo.  No segundo ano veio uma professora de filosofia muito bonita, irônica e sagaz. Esta me ganhou. Foi como Eva no paraíso. E lá estava eu lendo Sartre e Nietzsche como se fossem a maçã. Morri de paixões platônicas várias vezes e senti que meu céu corria perigo. Maldita castidade! Comecei a perder o horário das orações, deixar de cortar a grama e assim as tiriricas tomaram conta. Sorte foi nunca ter tropeçado e caído sobre meu crucifixo, ou teria morrido em meio às farpas. 

Certo dia, fomos todos, padres e seminaristas, visitar um lugar próximo chamado santuário de Schoenstatt (é o nome de uma cidade alemã, significa Belo Lugar), dedicado à devoção de Nossa Senhora. Um lugar lindo, repleto de árvores, gramados, horizontes e borboletas. Porém, neste dia, nada disso observei. Meu crucifixo de madeira já não estava mais pendurado em mim, eu não estava mais naquele lugar.

Assim, tanto o seminário agostiniano como também o santuário de Schoenstatt haviam praticamente sumido da minha memória por quase vinte anos. Durante este tempo todo não consegui me recuperar totalmente do trote que levei de Deus, afinal, chamou e não chamou.

Finalmente, há alguns dias, por obra do acaso, eu estava num ônibus de turismo que parou em um lugar desconhecido para que algumas senhoras comprassem lembrancinhas.

- Que lugar é esse? Pensei eu.

Era Schoenstatt. Desci e fui até a capela. Cheio de passado para desafiar o meu presente, sem fé alguma, parei diante do altar. Há tempos não consigo verbalizar diálogos com Deus. Parece que meu pensamento precisava conceituá-lo, mas o silêncio falou por mim. Se ele estava ali, olhamo-nos nos olhos.

Na saída, vim pela trilha de pedras. Repensei a vida. Queria uma resposta, mas nem sabia qual era a pergunta que meu silêncio havia feito. Subitamente, o vento se intensificou e liguei minha câmera para filmar as palmeiras dançando. Minha mente não estava ali, novamente. Voltara àquele momento de que me havia esquecido. Surge no céu uma borboleta azul, enorme que veio pousar no meio do meu caminho. Ela ficou alguns instantes diante de mim, depois regeu o vento com suas asas e sumiu por detrás de algumas folhagens. Não havia mais perguntas.

Emerson Batista

14 comentários:

Wesley Viana disse...

Gostei do texto, e a borboleta.. sem palavras
Não sei porque, mas terminei de ler seu post e me perguntei: "Em que fase dessa história eu estou?"
Estou colhendo a maçã..

Djo! disse...

Nossa, curti muito o texto. Cena de filme, onde o passado encontra frente a frente com o presente.
Mesmo não sendo um texto de comédia(acredito eu) confesso que ri no começo hehe.

Forte abraço!

Alberto Centurião disse...

A cruz virou borboleta.

Clecia disse...

Adorei seu texto! Parabéns! Que linda cena esta da borboleta azul. Era Deus! Um abraço!

Teia de Textos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Teia de Textos disse...

Querido Poeta!
Acho que o trote somos nós que pregamos a nós mesmos. Afinal, Deus (Ele próprio!) lavou Suas Santas mãos ao deixar claro que existe o livre arbítrio.
Sabe, a sua Eva da filosofia foi sedutora também a mim e, de certa maneira, me inspirou no tipo de professora que um dia gostaria de ser.
Eu adorava seus crufixos, que foram diminuindo de tamanho com o tempo, até que tornou-se pequeno (lembro-me daquele que era como um botton que misturava o símbolo da ordem - eu queria AQUELE, mas você não me deu!).

Sobre seu comentário em meu blog, os acentos caídos ainda têm um tempo para que possamos nos sentir em paz com tantas mudanças tolas e estúpidas de nossa língua. Que céu não perca jamais o acento, nem tampouco o encanto.

Ana Paula R. disse...

A borboleta regeu o vento...lindo isso!
parabéns pelo texto!

Nanda disse...

Achei lindo, li, reli...

O passado sempre dá um jeito de voltar, nem que seja pelas asas lindas e leves de uma borboleta!
Meu beijo!

Andressa disse...

Eu amo flores azuis quase mais do que borboletas desta cor. Acho que não acabaram todas as perguntas, rs.

Andressa disse...

Você é um escritor sensacional.

G Sandi disse...

Curioso, Emerson, que no mesmo dia tenhamos postado crônicas em que borboletas se afunilam para nossos jardins.
Já quanto à sua vocação religiosa, o melhor dela é a possibilidade desta crônica, hihihi.
Quem sabe um romance? Quero furtar partes de sua vida para, quem sabe, um dia, narrá-la.
Um abração.

Rosângela Monnerat disse...

Tudo azul. Das cores da borboleta ao seu leve pousar sob nossos olhos.
Não acredito que o tempo tenha passado. Ele contudo nos ilude. Deus é quem sabe. E Einstein, que nos presenteou com sua célebre verdade.
A borboleta é azul, a alma é borboleta, o destino é a dança no ar. Que o seu leve pousar nos conduza além. Muito além das cruzes.
Bj poeta!Vc me acertou mais uma vez.

Poeta Da Colina disse...

Diria que ainda estou a procura de borboletas...tudo ao seu tempo.

Webert Gomes disse...

Me arrancou muitos sorrisos este seu texto. Sim, porque foi totalmente de encontro a minha passagem da caverna para o mundo real, passagem não muito diferente da sua . Minha mordida na maça começou com as aulas de filosofia na faculdade, estudando a Teoria do Conhecimento. Depois me aventurei com livros simplórios como 'A Cabana' e 'Por que você não quer mais ir à igreja?'. Dae, então me adentrei a Platão, Sócrates e Descartes. Hoje sou amigo deles. Rsrs! Adorei a crônica. Abraço.

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