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Xaxá no Milharal

Van Gogh - O Semeador
          
Xaxá me foi dado pequeno, indefeso, miava desafinado e carente. No começo, tive a decepção com a sua raça. Que raça? Era acinzentado e peludo, logo pensei que fosse um gato persa. Nada. Era normal mesmo. Isso lhe custou perder a ração mais cara. O que não significava ser um gato qualquer. Criamos como da família, e ele levou isto muito a sério. Os gatos com certeza participaram da inauguração da soberba no mundo. Por isso, cuidado ao tratar um deles com desdém. Alguém já viu um gato vira-latas? Cachorro sim, mas os cachorros são mais humildes, talvez. Gato pode estar todo arrebentado e faminto, não perde a pose.

Quando debutou sua felinidade, algum vizinho já começara a envenenar os gatos da redondeza. Lembro-me de ter dito: Xaxá, seu safado, não saia de casa, no máximo fique no quintal, há comida de sobra. Mas gatos invertem as ordens, nisso parecem adolescentes. Um dia, chegando em casa, encontro meu acinzentado se contorcendo no chão e não era por preguiça. Notei sua pupila dilatando, sua boca espumando. O maldito Gargamel das redondezas envenenara meu Xaxá. Sua vida estava por questão de horas. Iniciei um diálogo surreal tentando consolá-lo:
 

- Meu gato amado, deve haver um céu dos gatinhos, você vai ter ração e pardais de sobra neste lugar. Ali, tome cuidado com seres alados, não pule sobre eles, podem ser anjos e não passarinhos.

Ele parecia prestar atenção, devotamente. Meu passado de religioso de repente ressurgia nesta verdadeira unção dos gatos enfermos. E durou pouco sua agonia. Vitrificou o olhar e expirou nos meus braços. Onde era tremor deu lugar à tranquilidade no sono do qual não despertaria espreguiçando.
 

Decidi enterrá-lo no quintal de casa mesmo. Um ritual do qual cuidei pessoalmente. Escavei um buraco usando um enxadão cego herdado de meu avô. Nunca imaginei que fosse tão dura aquela terra vermelha. O fato é que se formou um par de calos eternos nas palmas das minhas mãos. Por fim, o sossego final de Xaxá na terra crua. Sossego forçado, já que ele tinha ainda muita energia para gatear no mundo.

No mesmo quintal, plantamos sementes de milho. Germinaram que foi uma beleza! Fiz questão de ajudar na colheita. Estranhamente, muitas espigas vieram com cabelos acinzentados.

Emerson Batista

6 comentários:

Teia de Textos disse...

Eu li e sorri. Afinal as lembranças, descritas aqui de forma tão literária, são minhas também. Os gatos que moraram em nossas casas e ocuparam nossos corações foram nossos filhos antes das crianças nascerem. E o Xaxá foi assim chamado por causa da Moana. Ah! Minha Moana!
Esse milharal está sempre em minha mente, junto com a Vó Cida descascando milho para fazer curau.
Isso é meu. Ninguém tasca!

Vampira Dea disse...

Histórias com gatos me pegam pela alma, pois eu como admiradora e total dependente da companhia felina senti a história como muitas das quais já vivi com meus inesquecíveis amigos.Alguns foram mais que especiais: Jaú que morreu de ciúmes de meu segundo filho, Junior que depois de ter gasto as sete vidas com diversos acidentes foi morrer justo de saudades de mim e uma tadinha que foi morrer pela violência masculina felina.
Gatos são encantadores e verdadeiros,lindos, brejeiros e completamente feiticeiros, lindo o seu texto, lindo, lindo.

Andressa disse...

Alguém já viu um gato vira-latas? Todo gato é irish blood, english heart, todo gato é um lord mesmo, hahaha. Até nascer cinza no contexto dele, é um elogio.
Muito bom o texto, pra variar, meu amigo escritor.

Mariana Corrêa disse...

Lindo. Chorei aqui.
Seus textos são muito emocionantes e, embora eu não comente sempre, estou por aqui, lendo-os.
Como estão todos por aí?
Beijos

Gui disse...

Hihihi!, pelo menos o sabugo não nasceu miando!
Brincadeira! Antes miando que uivando, vamos convir.

;)

Rodrigo Passos disse...

ótimo texto!

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