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A Grande Paineira dos Dois Espinhos (de 1992)



Vou lhes falar de um lugar onde havia uma floresta encantada. Entre um pato falante e uma cobra voadora, ou um elefante que assoviava, o marcante dos animais que ali moravam era que todos eram imortais. O pato que me contou, há tempos, esta estória, jurou-me de patas-juntas que é tudo verdade – em nome da Grande Paineira dos Dois Espinhos.

Ele disse que os predadores tinham de se esmiuçar à caça de alimento que não fosse outro animal. Ninguém matava porque ninguém morria. Eles tinham avivamento suficiente para jamais terem fome ou sede.

Esse lugar não ficava a muitas luas duma chácara onde morava um senhor corcunda. O pato o conheceu, mas depois deixou o velho falando sozinho.

No entanto, mesmo com este dom fabuloso da imortalidade, um mistério enveredava por entre os arbustos e arvoredos entrelaçados aos cipós. A floresta respirava um ar de crepúsculo, como se já fosse hora de dormir. Últimos suspiros ecoavam feito vento de som próprio. Havia um segredo que todos conheciam, mas jamais falavam sobre.

Na verdade, todos seriam eternos até quando quisessem. Somente morreriam os que livremente se entregassem aos braços de uma paineira cuja forma lembrava um gigante segurando um espinho enorme em cada mão. Esses espinhos eram capazes de pôr fim à imortalidade inata a todos os animais daquele lugar.

- Ei…! Vocês viram a andorinha Sinhá, minha companheira?

- … ?

- Ontem nos vimos muito rápido e aprece que ela partiu muito triste comigo. Imaginei tê-la visto voando para o Sul, mas pensei que tentasse me enganar. Afinal, a Grande Paineira fica por aqueles lados – não pode ser…

- … !

- Andem! Viram a andorinha Sinhá?! Por que não me respondem?...

O olhar do grupo de araras voltou-se para trás da colina onde ficava a Paineira dos Dois Espinhos, que para todos significava respirar sem sentir, ver o pôr-do-sol e não lembrar mais que existem as manhãs.

Dorim partiu dali para o Sombrio Caminho como se os olhares das araras traçassem uma linha como um arco-íris negro. E ele seguia como que por instinto.

Pensava Dorim, enquanto voava como quem busca o perdido, como quem chora o que não volta:

- Deve estar pensativa nalgum lugar afastado. Ela me aguarda… Então vou abraçá-la e pedir-lhe que me perdoe por ter-lhe dito que não poderíamos voar juntos no inverno.

Enquanto o vento lhe roubava a cada instante a respiração, Dorim repensava em todos os invernos nos quais voaria para lugares mais quentes junto de Sinhá. Imaginava, com muita dor, a eternidade da solidão causada pelos instantes que pesariam em suas asas caso Sinhá partisse. Os invernos o perseguiriam mesmo quando rumasse ao Sul. Onde estaria Sinhá? Ao Norte? No meio da floresta? Não, Sinhá estava nos braços da Paineira dos Dois Espinhos. Jamais voariam juntos, jamais poderia lhe dizer que sua aspereza acontecera por causa da monotonia da imortalidade. Mas agora já havia partido aquela que trouxera o sentido ao eterno por enquanto do universo de Dorim.

E Dorim levanta voo, e rumava a cada vez mais na direção da Grande Paineira. Suas asas mal aguentavam.

Todos nos arredores sentiram arrepios quando ouviram:

- Sinhá…! Eu voo pra onde você voa. Vamos para o Sul! O inverno chegou…!

Então começou a chover por toda a floresta, o que perdurou por todo o tempo de inverno – coisa difícil de acontecer naqueles lugares.

Só que, não soube explicar o pato, a partir dali os verões não eram mais feitos de andorinhas. Ursos não duelavam por comida, nem pelo mel mais saboroso. Araras entediavam-se ensimesmadas pelo colorido de suas penas. E o leão desistia de ser rei. E todos, inexoravelmente, passavam pelos braços da Paineira dos Dois Espinhos como quem respirasse a luz avermelhada do fim-de-tarde. Andorinhas rumavam lado-a-lado aos braços da Grande Paineira. 


Este foi o destino de todos os animais do lugar, exceto o pato falante, que primeiro contou a história ao velho dono da chácara. Dizem que o velho sumiu do lugar em busca da Paineira também. O pato me relatou tudo isso antes que eu me lembrasse que era Natal e não comprara ainda o chester para a ceia.

Emerson Batista

9 comentários:

Vampira Dea disse...

Adoro Gustav Clint.
Imortais... minha avó falava que não queria ficar pra semente, eu também não.
De que valeria a imortalidade se não se pode voar junto?
Por outro lado quanto alivio, ou dor pode trazer uma escolha?Escolher a hora de se espetar...
Texto cheio de simbologias mas o cenário que imaginei, engraçado, seria surrealista rsrsrr, a riqueza dos teus textos além da construção impecável é a liberdade que nos dá de fazer pinturas mil em nossas mentes.

Teia de Textos disse...

Sabe, recordo-me do exato instante que li esse conto 18 anos atrás.
Eu e meus quinze anos se arrebentaram de chorar diante da decisão de ambos.
De alguma forma, a finitude castigou-me. A mim e aos meus sonhos adolescentes.
É. Sinhá sucumbiu. Dorim foi atrás. O que teria acontecido às Araras que olharam para o caminho feito por Sinhá?
Eu tb, depois dessa história, deitei-me à opulência dessa Paineira linda e ceifadora.
Dolorido e belo. Como sempre. =]

Emerson Donizeti Batista disse...

Vampira Dea,
Realmente é algo surrealista. Eu havia me proposto a reescreve-lo, mas mantive o tom surreal e até cômico do final. Ele nasceu assim e assim quis ficar dentro de mim. Vai entender, ne?
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Teia de Textos,
Sempre entendi que a finitude conferia beleza às nossas vidas. O por-do-sol e seu vermelhão no céu era algo que nos remetia aos finais necessários.
Talvez a vida nos mantenha no casulo muito tempo e nossa vocação seja voar.

Michele disse...

Querido, te conheço (virtualmente) faz um tempo e me questionei agora, como não conhecia teu Blog. Aliás, não foi do Twitter que nos conhecemos e por que 'diabos' eu só conheci teu Blog hoje?

Adoro você. Tua escrita no Twitter me encanta. Para mim você é um Homem de frases e ótimas frases, lúcidas, intensas, doces e inteligentes.

Já estou aqui. E não saio mais. Nem a tapa (rs).

Um beijo
Mih

Gui disse...

Lembrou-me de contos-de-fada, não sei exatamente porquê. Talvez o último livro d'As Crônicas de Nárnia também.
E Dorim lembrou Guimarães Rosa. :)
E tudo junto lembrou-me de que é hora de pensar num livro de contos e crônicas, ok?

Abraço.

Rodrigo Passos disse...

ótimo texto!

Rosângela Monnerat disse...

Não existem muitas saídas para o tempo. A imortalidade é de outro lugar, que fica pra depois da mortalidade.
O que temos é a vida e com ela fazemos de tudo, ou quase tudo. Mesmo quando a insatisfação nos alcança ainda assim, a vida está sujeita a mudanças. Só sabemos viver. Não sabemos morrer.
E vivemos intensamente exatamente porque supostos perenes, nesta doce ilusão de eterna continuidade.
Nascemos sem conhecer o resto das nossas vidas. E vivemos a surpresa do eterno vivido.
Pode ser comprido o destino até alguma plena eternidade. E até lá, o tempo, nosso maior aliado, ele sim é o grande imortal.
Como disse um dia Chico Xavier, nos preparamos para a morte toda noite, e a cada sono. E renascemos a cada manhã.
E em certa medida, assim exercitamos este poder de ir e de vir,
daquela que seria a nossa “pequena” paineira dos dois espinhos. O justo descanso da mente desperta.
E assim, dormindo morremos, e acordando nascemos, para seguir aprendendo a viver sem precisão.
Beijos querido companheiro que conheci na lua, ou num sonho,
ou naquela visita que adorei receber, ou na troca que adoro fazer, ou na trégua do trabalho, ou em plena poesia, ou enfim, um amigo querido que vou levando enquanto é tempo de ir e vir por aqui, nos lugares de comum viver.
Valeu e tá valendo!

Nanda disse...

'que para todos significava respirar sem sentir, ver o pôr-do-sol e não lembrar mais que existem as manhãs.'

Preciso de um refúgio desse!

Meu beijo!

Emerson Donizeti Batista disse...

Michele,
Pois é, às vezes o contato virtual nos faz deixar passar espaços que seriam interessantes de serem visitados. Seja bem-vinda!
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Gui,
Olha, na época em que escrevi o texto, acho que estava sim influenciado pelo Rosa, mas nem me penitencio por isso, já que ele é um gênio mesmo!
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Rodrigo,
Valeu pela força!
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Rosângela,
Lindo seu comentário! Merece um post próprio no seu blog! Foi mais denso e profundo que meu modesto texto! Parabéns!
...................................
Nanda,
É, olha, eu cheguei à conclusão de que o único refúgio nesta vida é não ter medidas para nossos sentimentos. Só assim buscaremos os limites da nossa existência e experimentaremos de antemão todas as manhãs vindouras.

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