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Pastor das Lembranças



Não tive só gatos e peixes. Na verdade, meu primeiro animal de estimação foi um cachorro chamado Puppy, um cão preto, vira-latas pequeno cuja fúria em defender o quintal o fazia famoso nas vizinhanças. Quando nasci, Puppy já era velho. Nunca foi um cãozinho de subir no sofá, receber cafunés. Era, sobretudo, um soldado leal. Balançava o rabo em continência, e só. E, enquanto o tempo me fazia de criança a menino, ele definhava em pulgas, carrapatos e dentes moles, ainda que não perdesse o brio de guardião da casa.

Não foram poucas vezes em que enfrentou e venceu cães que davam o dobro do seu tamanho. Gatos nem se aproximavam o nosso galinheiro. Estranhos no portão tremiam de medo da fera. Seu jeito de defender o espaço era inigualável. Capaz de se dar em martírio se preciso fosse. Sobreviveu a dois atropelamentos devidos ao seu esporte predileto: latir para rodas de carro. Essa coragem, essa indiferença com a morte fazia de Puppy um personagem marcante daquele tempo imemorial.

Puppy só atendia ao meu assovio.

Todas as memórias que tenho desta época são pastoreadas por aquele cachorrinho preto cor de carvão. Era ele que protegia todas as crianças do bairro dos temidos maleiros, andarilhos supostamente propensos a enfiar crianças num saco de estopa e as levarem para longe. Nada disso temíamos! Meu pai havia feito para ele uma casinha que mais parecia um castelinho, feito de tijolos velhos e barro seco. De lá, Puppy reinava soberano em cada canto do nosso quintal.

Certa vez, fomos, minha avó e eu, à cidade buscar o bolo do meu aniversário. Ele foi junto. Porém voltamos de perua, já que não dava para trazer na mão o bolo enorme confeitado com bolinhas coloridas e metalizadas. Foi uma grande bondade a confeiteira nos dar carona. Puppy não pôde vir junto, e nem fez menção a querer isso também. Fiquei desesperado ao deixa-lo tão longe de casa. Entendia aquilo como traição à nossa amizade. Ele nos tinha acompanhado a pé, ou patas, agora voltávamos de carro e ele não saberia voltar, pensei. Nisso minha avó me tranquilizou: “Filho, os cachorros sempre voltam para casa”.

Pois minha avó estava certa. Puppy voltou para a casa logo depois que chegamos.

Uma vez encontrei na areia da estrada de terra diante de casa um dente canino. E cão sem dente é igual rei sem coroa. Ninguém o leva a sério. O reinado de Puppy entrara, definitivamente, em declínio. Até mesmo as vacinas antirrábicas eram torturas em seu corpo velho e frágil. Via nos seus olhos o brilho do cansaço e da velhice. As moscas em seus olhos eram espantadas em movimentos agora suaves. Sua respiração ofegante, porém, não perdia a elegância de um lorde. Todos os dias eu rezava para que Deus não deixasse voltar para seu corpo os carrapatos que eu tirava no dia anterior. Mas Puppy não tinha disciplina, ia para o gramado e lá se enchia novamente daqueles companheiros sanguessugas. Acho até que já se acostumara a eles.

Puppy latia rouco na velhice, mas nunca teve tanta autoridade.

Adultos não entendem nada sobre o sofrimento das crianças e animais. Adultos não entendem nada nem sobre si mesmos, nem sobre velhice, nem sobre a vida, nem sobre a morte. Quando colocados na condição de juízes do sofrimento, agem causando mais dor. E foi naquela volta da escola que não encontrei mais Puppy no quintal:

- Fiuuuuuu, Fiuuuuuuuuuu, Puppyyyyyyyyyyyy!

- Puppy morreu, ele agora descansou – disse minha mãe, cabisbaixa.

- Morreu de quê, mãe? – disse eu, com voz embargada.

- Ele já estava velho e doente, filho. Você via que ele mal conseguia andar. Estava com sarna e os dentes já caíram quase todos.

- Mas onde ele está enterrado?

- Eu pedi para o lixeiro levar.

- Por quê? Por quê? Por quê? ...

Destino cruel para meu soldado ser levado como lixo. Muitos anos depois, minha mãe contou que Puppy não morrera naturalmente. Ela que havia decidido sacrificá-lo para poupar-lhe o sofrimento. Chamou a polícia e pediu para que disparasse uma bala naquela frágil cabeça. Assim, haviam abreviado sofrimento daquele nobre cavaleiro negro dos dentes bambos. 


E agora? Sumiu na estrada de areia minha infância? Hoje me surpreendo ao ver Puppy em lembranças de épocas em que ele nem vivo estava mais. Mesmo memórias recentes, por vezes são invadidas por ele. Não sei precisar em que ano foi seu falecimento, nem quantos anos eu tinha na época. É como se ele continuasse a estar lá, ou aqui, pastoreando meus pensamentos e desfilando seu charme vagabundo. É só assoviar para que ele surja imediatamente. E tudo isso foi minha avó dizendo: “Filho, os cachorros sempre voltam para casa”.

Emerson Batista

12 comentários:

Inez Freitas disse...

Tenho que confessar que não gosto de gatos, mas os suporto e posso aprender a gostar. Mas confesso amo cães, sendo que tive três e filas – a Diana, o Taigra e o Tyson. Os dois primeiros a minha madrasta deu para outras pessoas, enquanto eu não estava em casa. Chorei horrores. Mas aí veio o Tyson, negro, pequeno, lindo e um dia vim embora para o Tocantins e não pude trazê-lo. Dois anos depois ele morreu e mais uma vez chorei e jurei a mim mesma nunca mais ter um cão, mas tem dia que dá uma vontade arrumar um.

Vampira Dea disse...

Não gosto tanto de cães como gosto de gatos, mas gosto. Chorei um pouco quando li o seu texto,vi representado em suas palavras meu velho amigo Barão, que tanto serviu e quando ficou velho teve o mesmo destino que o seu herói negro. Acho que chorei também porque os bichos tem razões e formas de agir que a gente desconhece.Há pouco perdi o meu Conde Vlad e Conde Bóris depois da morte do amigo ficou muito possessivo e acha que eu sou dele. Hoje fui fazer carinho no cachorrinho de minha sobrinha e ele que sempre se deu bem, num ataque de fúria e ciúmes furou os dois olhos do cãozinho...E esse cãozinho já está velhinho e até hoje sobreviveu a muitos ataques ao caminhão do lixo. Mas ele vai ficar bom.
Linda a sua crônica vc tem o dom de emocionar com palavras e situações do dia a dia chamando a atenção que tudo e todos valem a pena ser vividos.
Uma linda semana.

Lu... disse...

linda história...parabéns lindo!vc sempre me faz viajar em seus contos...

Daniella Caruso disse...

Triste, mas com um ponto de vista pra lá de revelador!!! Gostei.

Emerson Donizeti Batista disse...

>> Inez,
Depois do Puppy eu não tive mais nenhum cachorro. Aliás, continuei com ele.

>> Vampira Dea,
Obrigado pelas palavras de incentivo. Sabe, às vezes, animais de estimação remetem nossa memória à infância que fomos e que poderíamos ser.

>> Lu,

Obrigado pelo carinho.

>> Daniella,

Acredito que o ponto de vista é sempre revelador quando abrimos mão de tentar delinear nossa vida logicamente. Na verdade, é um grande mosaico.

Poeta Da Colina disse...

O mais importante para todos nós, termos para onde voltar.

Teia de Textos disse...

Vc sabe. Lindo.

simonelee disse...

Emerson, tu escreves muito bem. Estou amando teus tweets e, agora, teus contos. Obrigada por me seguir. Abraços. Simone (@psimone_nunes)

Andressa disse...

Filho, os cachorros sempre voltam para casa porque a fidelidade nunca sai do nosso lado.

Aline Ferreira disse...

não é à toa que é o melhor amigo do homem...

tem um selinho pra você no meu blog.
abraços e apernas.

Fernanda Tavares disse...

parabéns pelo blog!!!

muito bom esbarrar por entre estas palavras!

Van disse...

Chorei ao te ler!

Tanta semelhança com o meu guardião da infância, tantas coincidências.

Em tempos e lugares tão diferentes, algo de tão igual acontecia

"Adultos não entendem nada do sofrimento de crianças e animais"

Nem das alegrias!

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