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Serenata na Janela





 Meu primeiro instrumento musical foi um cavaquinho de segunda linha. Ganhei-o de Natal, pois, segundo meu pai, era adequado à minha idade, altura e mais barato que o violão que eu havia pedido.  A primeira opção tinha sido uma sanfona, mas não dava conta nem de segurá-la. Na impossibilidade do desejo original realizado, mantive o cavaco por anos, satisfeito apenas em sentir o cheiro de madeira empoeirada que vinha de dentro da sua caixa acústica e o estranho poder que me trazia.

Antes dele, eu tinha um estúdio musical: desde sempre havia sido um latão de 50 litros dentro do qual cantava para mim mesmo, supondo que o eco produzido amplificava meu som como se fosse uma caixa acústica. Tive meu palco naquele latão vermelho por muitos anos, até que a ferrugem me expulsasse e eu não coubesse mais ali dentro.

Jamais aprendi a tocar meu cavaco. A única vez que fora afinado, por bondade do senhor Tirabosco, um vizinho quase centenário que era violeiro, ele o ponteou algumas vezes para que eu soubesse o som que tinha. Percebi que havia gastado seus únicos acordes e ponteios naquele momento para me mostrar o instrumento. Por gentileza, não pedi que tocasse mais nada. Além disso, ele estava no crepúsculo da vida e vaticinou com galhardia:

- Pronto, agora vai tocando que você aprende sozinho.

Por alguns instantes, acreditei que aquilo poderia acontecer, mas a música não se deixa domar facilmente. É necessária dedicação e submissão aos seus tempos, encantos e compassos. Como na vida, nossos instrumentos precisam estar afinados para que a música nos venha encontrar.  É como na história do jardim que atrai as borboletas. Apenas muito tempo depois, finalmente meu pai me deu o violão que me acompanha até hoje e com o qual consigo dialogar razoavelmente bem.

Aquelas quatro cordas do cavaquinho jamais foram minhas. Ainda assim, era o único dos garotos da vizinhança a ter um instrumento musical. Embora não soubesse usá-lo, desde sempre cantava. Assim, meu cavaquinho marfim se tornou meu parceiro mudo nas galopeiras que eu cantava a quem suportasse ouvir. 

Hoje percebo que nunca tive grande apreço pelo ouvido alheio: falo alto, rio alto, canto alto, uma lástima!  Dessa forma, não tocar meu cavaquinho desafinado era o mínimo de favor que eu fazia aos ouvintes.

Perto da minha casa, no alto da mesma rua, havia uma igreja evangélica. Todas as noites, após os cultos, a família do pastor descia unida e passava defronte à casa amarela cujo vitrô da sala dava para a rua. Linda família, linda filha cujos negros cabelos brilhantes e lisos ouriçavam minha vontade de aparecer de alguma forma. Nunca vi seu rosto, apenas a silhueta. Pensei em pendurar alguma melancia na cabeça para ser notado; quem sabe algum ato heroico enquanto eles passavam em frente de casa pudesse chamar a atenção de Carminha?

Certa vez, percebi que, lá do alto da rua, Carminha descia com a família. Abri a janela da sala e saí com o cavaquinho em mãos, pernas balançando do lado de fora, instrumento empunhado corretamente, ferindo levemente as cordas para emitirem o menor som possível. Sentado no parapeito da janela aberta, comecei a cantarolar músicas da época para quem passasse na rua. Foi minha primeira experiência, digamos, com o público. Cantor de janela e cara de pau. Era uma serenata ao contrário, a musa estava lá fora. Cantei até o fim, até que Carminha e sua família tivessem virado a esquina. Até então, minha maior intimidade era saber-lhe o nome.

Quando passaram por mim, foram mais devagar, expressavam que estavam gostando. E foi nesta noite que meu cavaquinho se afinou para sempre dentro de mim. Não me recordo de um som que tenha emitido, mas todos agora soam divinamente. Talvez tenha até tocado de fato naquela noite. Quem vai saber? Lembro apenas que, ao final da esquina, ela olhou para trás e sorriu; talvez tenha sido a maior despedida, ou maior conquista que tive na vida.

Emerson Batista

4 comentários:

Darla Medeiros disse...

É tocando que se aprende a tocar, escrevendo que se aprende a escrever e vivendo que se aprende a viver... Parabéns pela bela textualização...

Andressa disse...

que lindo isso, meu irmão!
eu sou mais sanfona do que cavaquim - em todos os sentidos, hahaha.

Poeta da Colina disse...

Arranjando um coração. Isso é para poucos.

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

Bacana! E o cavaco, continua vivo? abs

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