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Vaga-Lume

     

     Sempre foi muito difícil minha relação com a luz. Talvez pelo fato de ter empacado no meio do caminho durante o parto, a questão de vida ou morte para chegar a este mundo e ter que deixar para trás o paraíso perdido na escuridão e sons corpóreos de minha mãe. Fui expulso do útero como Adão do paraíso.


     Correr atrás de vaga-lumes é um exercício sobrenatural; a gente imagina que consegue capturar uma estrelinha do céu, mas termina capturado por ela. Admirava cada um deles nos campos, perseguia-os até que desistia supondo que tivessem sido  resgatados pelas estrelas, devolvidos à escuridão. Quando os capturava, deitava-me no chão no mesmo nível deles. Imaginava serem carros com faróis acesos à noite. Brincávamos como se não houvesse o sol do amanhã.

     Morei numa casa em lugar afastado, sem iluminação pública; na volta da escola eu precisava passar por um pasto escuro, à noite. Mal podia ver onde estava pisando, e, por vezes, era melhor nem olhar; e vendo o céu dava para perceber aquela névoa com a qual a via láctea borrifava brilhante, como redes que pescavam estrelas. 


     Este véu de brilhos sombreava-me os medos a guiar meus vultos. Digamos que era um ótimo passatempo: olhar para o céu numa noite escura para se sentir menos sozinho, perceber que aquilo era um breu que não terminava até hoje, que a estrela é um vaga-lume que brilha, mas não ilumina.


   Passei muitos anos comprando pequenos faroletes para o caso de precisar. Deixava guardado no bolso. Eram daqueles de uma pilha só. Um sabre de luz? Um amuleto protegido pelas almas dos vaga-lumes. Afinal, 

vai que a luz se apaga, 
que a vela fenece, 
que o medo vem zonzo 
e o céu se escurece.


   Hoje um vaga-lume passou por mim. Nem lembrava quanto brilho era possível escapar do céu. Busquei-lhe o rastro com os olhos, quis perseguir. Quis buscar buscar lembrança, em vão, explicar minha mania de deixar luzes acesas pela casa. Tentei fechar os olhos e aprisionar a imagem, puxar as pálpebras como cobertor, sonhar como quem revisita o futuro da infância. 


     Mas assim como as estrelas que duram uma noite e já não são as mesmas sem nunca terem sido, destino igual reserva-se aos vaga-lumes: na manhã seguinte, depois de guardados numa caixa de fósforo como joias, voltam a ser insetos.





Emerson Batista

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